quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Janelas abertas

Havia cinqüenta janelas à rua naquele dia. Eram forças que devoravam minhas energias, tomavam minhas entranhas e estilhaçavam meu dia.
Que janelas eram aquelas? De onde vinham? Como chegaram ali?
Subitamente se abriram e foram me observando como se eu fosse qualquer um transeunte que estaria passando por aquela rua. Seu ar era de devassa, invasivo, de grande violência. Dissecavam minha alma como a me dizer: “eu te conheço, tu não te escondes de mim, conheço teus segredos e teus planos, sei das tuas vontades e vaidades, tuas dores, nada podes fazer que eu não saiba”. Era uma terrível sensação ver-me desnudo diante daquelas janelas que me viam por dentro. A nudez se tornava insuportável. Quem consegue estar frente a um espelho que reflete a própria alma? A abertura daquelas janelas trazia luzes que invadiam meu interior e se tornavam insuportáveis porque me fazia ver o próprio âmago, minha própria dor, meu desespero. Via as infindáveis mágoas que guardo com tanto desvelo, via minhas iras que conservo pacientemente até o dia da vingança; via os choros contidos de tanta pena de mim mesmo, via o riso cínico do amor que guardava com pavor de vê-lo solto a tomar conta de minha alma e via o temor do futuro o medo de não dar certo, de não ser aceito pelos amigos. Tudo aquilo se me mostrava claro, bem nítido, aberto naquelas cinqüenta janelas que não sabia de onde saíram, de onde vinham e como tinham se posicionado ali naquele espaço que antes era tão meu conhecido. A rua era minha antes, passava por ela todos os dias, a conhecia como ninguém, de olhos fechados era capaz de cruzá-la sabendo cada passo a ser dado, de olhos fechados, sabia de cada pedra, cada árvore, cada tudo que se encontrava naquele caminho. Cada fenda, reentrância, para mim não era desconhecido. Tudo absolutamente no seu lugar, correto, sem segredos e sem medos, sem surpresas. E, no entanto, agora, aquelas janelas abertas subitamente, vinham retirar toda a paz que eu conhecia todos os segredos que nem mesmo neles pensava toda a segurança que por tanto tempo mantive presa dentro de mim. Malditas sejam vocês que com seu espelhar fazem-me olhar para aquilo que nem mesmo sei que possuo. Com que direito vem vocês perturbar o meu sono? Com que direito vem vocês tirar-me de meu torpor, de minhas mornas tardes quentes? Acaso não sabem vocês que o olhar é tão dolorido? Acaso não sabem vocês que foi ele, o olhar, à causa primeva de nossa expulsão do paraíso? Fechem-se, deixem-me a sós, no escuro. Não quero ver onde piso, não quer ver quem sou, nem quero saber o que guardo profundo trancado dentro do peito a sete chaves, prefiro a ignorância de mim mesmo, pois assim posso sofrer sem precisar reconhecer minha parcela de culpa nesta dor.
Olho meus passos que caminham trôpegos pela rua que não mais reconheço. O cheiro que antes me era familiar, agora é outro. As janelas me miram, fitam-me completamente envolvidas em meu desespero, minha alma percorre uma tremenda noite escura, sombria descoberta de meu sono. Chamo a todos que passam pela mesma rua de irmãos, mas ninguém reconheço, estou só, solitário, entregue a própria sorte, a própria morte, a mim mesmo, desconhecido, desesperado com aqueles cinqüenta olhares que me arrancam do peito toda a ferrugem que com tanto carinho agarro-me a preservar, porque é nela que está tudo aquilo pelo que lutei a vida toda, é ali que está toda a minha história, todo o meu investimento, todo o esforço de minha vida, toda a minha personalidade, todo o meu ego, minha ferrugem. E o que tem depois? Haverá por um acaso um depois? Se me permito invadir e ser franco com aqueles misteriosos olhares, haverá outra chance? Uma renovação, um chão para pisar? Perder-me-ei no nada? Tornar-me-ei um nada? Acaso não sou um nada? Tenho algo a perder?
Uma sombra vem chegando, o sol sumindo, as janelas insistem em me desnudar, eu, perdido diante de tantos olhares não tenho mais forças para resistir, entrego-me completamente. Minha alma floresce em êxtase.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Por que não agora?

Quando este tempo passar e as futuras gerações olharem para trás, vão refletir sobre o tempo que era aquele onde os governantes locupletavam-se no poder; onde os vereadores, os prefeitos, deputados, senadores e o presidente da república, junto com seus apaniguados, faziam da arte da política um baú de enriquecimento retirando da população tudo que lhes podiam roubar. Vão olhar para este tempo de infortúnio onde todo direito os ricos e os políticos tinham, enquanto os pobres os carregavam às costas sem terem o direito de reclamar. Estudarão um tempo de menosprezo a vida de um modo geral e vão chorar por todo um tempo desperdiçado pela raça.

Olharão o que restou e verão destroçadas as matas, os rios, a atmosfera e terão apenas as fotos para ver a terra como era bela.

Estudarão as poucas espécies que restaram e perguntarão por que tantas atrocidades foram cometidas contra todos os outros seres que habitavam o planeta junto com o ser humano? Perguntarão por que havia tantos pobres se a terra era farta e a tecnologia disponível podia dar de comer a todos? Por que havia tantas guerras, tanto ódio, tanto desamor se ao mesmo tempo era uma época onde se reverenciava homens que tinham pregado a paz, a tolerância, a partilha e o amor? Por que iam tanto as igrejas e templos orar pela paz e pelos semelhantes se ao mesmo tempo praticavam a intolerância, a cobiça, a vaidade e o menosprezo pelos diferentes de si? Estudarão nos livros de história, mas, sobretudo, a literatura e compreenderão o infortúnio da época, a luta que muitos de nós travamos contra este estado de coisas, mas, que foi impossível vencer tanta iniqüidade. Farão estudos antropológicos dos programas de televisão e chegarão a quase compreender a burrice que norteou a ação dos seres humanos nesse tempo. Perceberão que houve muitos espíritos de luz que tentaram ajudar o planeta nesta passagem de tempo, mas a escuridão foi tamanha que rastros de podridão demasiado grandes foram deixados para que as novas gerações os apagassem..

Olharão os mapas com aflição e espanto vendo tanta divisão política onde não deveria haver haja vista somente sermos uma raça, uma espécie, e terão muito a entender porque países tão ricos ao lado de países tão pobres.

Por quê? Perguntar-se-ão.

No entanto, esta geração chegada, será a redenção do planeta. Terão que tudo reconstruir, tudo reelaborar, mas terão chegado a um ponto da evolução humana onde terá sido abolido o pensar fragmentado, o pensar dissociado do todo. Terá sido abolida a servidão e a ignorância e o pensar será sistêmico. A raça humana será uma e todos pensarão em todos como única forma de ser feliz. A responsabilidade por uma sociedade livre e farta será de todos e cada qual fará aquilo que é necessário fazer para assim ser. E todos serão indivíduos, únicos e livres para serem o que são, cada qual com sua habilidade, com sua beleza, com sua elegância. No entanto, todos sabendo que somente a partilha possibilitará a todos o bem estar social.

Seremos então uma grande árvore de profundas raízes fincadas em solo fértil com seus milhões de galhos e flores e frutos a espraiar o fabuloso perfume da raça humana sobre a terra. E todas as outras espécies a viverem sob sua sombra.

Mas por que perdermos tanto tempo? Por que não agora?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Tempos de mudanças este nosso tempo

Tempo de repensar as coisas da raça. Rever os pilares sob os quais erguemos, a duras penas, esta civilização. Em que nos baseamos? Qual o modelo que estabelecemos como o melhor e que nos serviu de linha mestra?
Penso no soerguimento de nossas cidades, nos ícones estabelecidos para a construção de impérios; olho as lutas travadas, guerras sem fim, mortes, destruição, atrocidades. Penso que estabelecemos como herói desta longa jornada o guerreiro, aquele que mata, que rouba, que toma aos outros o direito a liberdade e a própria vida.
Vejo na historia que louvamos Cezar, o general romano que invadiu tantos territórios em busca de fama, glória e poder e para isso assassinou milhares de seres humanos. Louvamos Alexandre e ainda hoje o chamamos de “O grande” porque fez o mesmo que Cezar. Estudamos Átila, o rei dos Hunos, que devastou toda a Ásia. Criamos até o mito de Aquiles, o grande matador e erguemos estátuas para homenagear Napoleão Bonaparte que quis ser senhor de toda a Europa e para isso sacrificou alguns milhões de almas. Erigimos memorial ao Duque de Caxias, dando inclusive seu nome a algumas cidades, que milhares de vidas ceifou em nome da ordem e da obediência ao rei; estudamos as duas guerras mundiais buscando culpabilizar apenas os derrotados como se os vencedores não tivessem nenhuma responsabilidade sobre os milhões de mortos, mutilados e a enorme destruição provocadas. Ainda aprendemos nas escolas que a competição é basilar do gênero humano e incentivamos o vencer o outro como nosso paradigma maior.
Tempos de mudança este nosso!
É preciso repensar com profundidade este paradigma para poder invertê-lo, rompê-lo, esquecê-lo.
Passou este tempo. Não há mais necessidade – se é que em algum tempo houve – de usar o recurso da violência para viver. Temos agora a ciência aplicada ao nosso lado, temos a tecnologia ao nosso dispor para nos prover do que necessitamos para viver e principalmente, temos o conhecimento para nos dizer que este não é mais um tempo de guerras ou de vaidades idiotas para ser amado. O temo agora é o da partilha, da troca, da generosidade, da amizade, da compaixão, da fartura para todos, do amor incondicional à própria raça.
Chegou a hora de dizer que acabou a era da violência, que passou o tempo da cobiça. Chegou o tempo de inverter o olhar, clarificá-lo, limpá-lo. Retirar da frente da visão a espessa camada de sujeira que impede de ver o mundo como uma rosa e curti-lo em beleza, poesia e criatividade.
É possível. Não é um sonho, não é utopia.
Como dizia Jonh Lennon em sua música Imagine: “I hope someday you join us, and the world will be as one”.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

meditação

Meditar é correr riscos, por isso é difícil entregar-se a sua prática cotidiana.

Mas que tipo de risco é esse? Pergunta o neófito que pensa a meditação como um simples ato de sentar-se e fechar os olhos.

Que risco há nisso?

O risco é o de se conhecer, se encontrar. Fechar os olhos e repentinamente nos olhar com muita profundidade, perceber-nos agindo de forma que condenamos nos outros; olhar e ver que não somos tão eficientes ou melhores como por muitas vezes nosso ego nos faz crer que somos. É ficar sob a luz de nosso próprio holofote; é deixar vir à tona, com ou sem medo, os nossos mais profundos desejos, nossas ambições, medos, frustrações; é conhecer a “moldura” na qual fomos enquadrados para “melhor” viver em sociedade, é olhar por detrás de todas as convenções e conveniências e nos reconhecer apesar disso; é ouvir a voz de nosso medo ou arrogância ecoando como um grito dentro de nós. É nos apoderarmos de nosso ser, tomar responsabilidade por nos mesmos apesar de tudo que percebemos. É buscar mudar e estar atento, sobretudo para nós mesmos.

Meditar é adentrar a nossa essência, é perceber a nossa universalidade e nossa unidade com todas as coisas, é expandir a consciência desvendado os mistérios que residem em cada um de nós, é uma prática aventureira, o deslumbramento da maior de todas as fronteira que já envidamos descortinar porque reside em nossa interioridade, é nosso encontro com o que é divino em nós; é a mais profunda religiosidade, o respeito a todas as coisas viventes; é o compartilhar um mundo que não é só nosso; é descobrir a grande meta onde devemos chegar a partir de nosso ser individual mas que também é coletivo haja vista que somos um só e proviemos de uma mesma origem. É eleger o amor como fonte eterna e regente de todo a grandeza e beleza do universo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mentira

Estranho ser é o humano! Primeiro porque mente sem perceber que mente, e segundo porque mente sabendo que está mentindo.
A maioria das pessoas vive enfronhada no mundo das mentiras. Uns sem o saber e outros sabendo. Uns absolutamente incapazes de perceber a si próprios, vivendo como robôs sua vida pessoal e social, não tendo noção de sua originalidade como seres humanos, e outros mentindo porque não conseguem outras estratégias mais eficazes que lhes facilitem a vida. Ambos os tipos vivem enganados e enganando os outros num jogo que os leva a um círculo vicioso sem crescimento pessoal. Ambos vivem sob espessa névoa de ilusão que não lhes permite ver o mundo mais lindo como de fato é.
Os mentirosos que não sabem que o são vivem alienados de si e do contexto em que vivem. Não percebem que sua vida e a vida de toda a comunidade dependem de sua ação individual e coletiva; vivem de assistir novelas e jogos de futebol sem se darem conta do está por trás de seu sofrimento pessoal ou de sua coletividade. Vivem no mundo da lua, dispersos e adoram receber ordens: fazem aquilo que lhes mandam fazer, não possuindo senso crítico para discutir as ordens que recebem, mesmo sendo estas imbecis.
Já aqueles que gostam da mentir, que tem a desfaçatez de mentir inclusive em público, gostam de mandar gostam de possuir tudo para si não tendo ultrapassando a fase infantil do egocentrismo. Querem sempre estar sob a mira dos holofotes e para isso inventam todo tipo de jogo, criam encenações, confusões, estorinhas infantis e até cunham mortes para conseguir o que desejam. Este tipo de mentiroso acredita que a mentira faz parte do ser humano e de todos os contextos humanos. Para ele, mentir é sinônimo de poder e glória. Nossa linhagem de políticos atual é claro demonstrativo do que digo.
O fato é que estes dois tipos de mentirosos se completam: um não pode existir sem o outro, um necessita do outro para existir. Ambos não sabem que existe uma vida muito mais intensa, muito mais rica e cheia de desafios e aprendizados quando se deixa a mentira de lado. Ambos são espiritualmente pobres porque mentem e mentem porque são espiritualmente pobres. Tenhamos, portanto, compaixão daqueles que mentem porque “eles passarão, nós, passarinhos”. (Referencia incidental ao poeta Mário Quintana.)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Por um novo vir-a-ser

Quando nos pusermos a pensar sobre o mundo que vivemos, devemos pensá-lo através da luz da consciência e não através da moral, dos costumes, dos pré-julgamentos, da lógica egóica, ou da mente que tudo fragmenta. Não podemos pensá-lo através dos pequenos valores mundanos herdados de um contexto social carregado de discriminações e desejos forjados ao longo dos anos.
Olhar o mundo através da consciência é olhar ao redor e perceber as sutis relações que estabelecemos ao viver com todos os seres que habitam este planeta. É maravilhar-se com a vida pelo que ela é: imprevisível, sem propósito algum aparente, muito dissociativa individualmente, mas essencialmente coletivista histórica e sociologicamente.
É necessário que se olhe o mundo não através de nossos pequenos pareceres, considerando-o como um espelho de nós; mas através dos olhos da criança que se deslumbra com o presente, que sofre em função dos desconhecimentos e chora as frustrações, mas acima de tudo, entrega-se para ser acariciada pelas mãos paternais.
É necessário que se rompam as cortinas da separatividade imposta por uma mente individualista e busque-se compreender que todos nós temos uma mesma origem, um mesmo destino e que de nossas ações depende este nosso planeta.
Olhar o mundo como um grande condomínio cuja responsabilidade administrativa cabe a todos nós. Desenvolver em nós uma consciência de coletividade, de respeito ao outro, de fraternidade e acabar de vez com os mesquinhos conceitos etnocêntricos que só nos separam e nos forçam a pensar o outro como agressor e inferior porque diferente de nós.
Olhar o mundo como uma unidade.
Não existem fronteiras que possam delimitar nossa curiosidade em conhecer nosso grande condomínio chamado terra. Sentir-se no direito de ter cidadania universal porque nos somos seres nascidos no planeta e esta é nossa casa.
Buscar desenvolver em nós o sentimento de cuidar deste chão e de todos os seres que nele habitam. Deixar de nos considerar únicos ou os favoritos de deus e por isso com direito de usar a nosso bel prazer de todos os outros viventes do planeta.
Nós humanos, desenvolvemos, por alguma razão que desconhecemos o poder de criar, de transformar e de amar profundamente. Somos seres em constante processo de vir-a-ser, não nascemos acabados, mudamos. E hoje, temos consciência deste fato. Portanto, é preciso que direcionemos este nosso vir-a-ser no caminho da comunhão, da paz e da harmonia entre nós mesmos e com os outros viventes do planeta.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Na hora da morte

Na hora de minha morte

Quero olhar no fundo de mim

E dizer que valeu a pena!


Quero lembrar das sementes

Que plantei neste solo fértil

E lembrar dos olhares que abracei

E dizer obrigado por te conhecer



Quero estar alma aberta

E sorrir encantado

Pelos presentes que dei e recebi



Lembrar que conheci

Outros mares

Outras terras

E tantas outras pessoas



Quero sentir vontade de sorrir

Sorrir e sorrir por tudo que passei

Pelas horas mal dormidas

Pelo sono excessivo

Pela fome de amor



Quero lembrar das estrelas que vi

Em tantos lugares mágicos

E agora as verei mais perto ainda



Quero lembrar dos alimentos

Que saciaram minha fome

E agradecer-lhes a generosidade



Adorarei pensar nos animais

Que vi nascer

E me acompanharam nesta jornada

E olhar com compaixão aqueles

Que ainda não os amam

Por pura ignorância



Quero estar em estado de prece

E agradecer a maravilha

De ter passado por este planeta

Com o qual contribui parcamente



Quero olhar a todos no rosto

E fazê-los lembrar

A importância da felicidade

A preencher nossos corações



Estarei ouvindo música

Aquelas das quais sempre gostei

E gostarei



Vou dizer adeus

Com alma plena de vida

Agradecido ao universo

Pela obra divina

De ter me dado novamente

A oportunidade da vida



E nesta hora

Deixarei apenas uma única lágrima

De saudade e de tristeza

Por todos aqueles

Que não pude ajudar

A compreender a benção

E a oportunidade

De estarem vivos

E não terem aprendido a viver.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Redenção humana

No fundo, todos nós temos esperança de que amanhã, ou o ano novo que se aproxima, será melhor.
Temos o dom de sonhar, de projetar um futuro mais brilhante para todos, porque somos estrela, temos brilho interior, temos luz, que sem se saber exatamente de onde vem, lentamente vai clareando nosso caminhar.
Aparecemos na terra como rudes animais, sem palavras, sem carinho, apenas lutando pela sobrevivência como qualquer outro ser vivente. Mas o nosso sol interior, por um milagre qualquer da existência, floresceu e trouxe a inteligência para aquele que estava fadado ao desaparecimento.
Nasceu então o mais brilhante animal que jamais tinha estado neste planeta. Transformou-o, transformando-se. Acumulou vasto poder. Dominou enormes quantidades de conhecimentos transformados em criações que mudaram nossa forma de viver.
Homem movido a esperança, homem/Pandora, aquela que trouxe os males ao mundo, trouxe também a esperança de um dia, num salto, numa tomada de consciência olhará de outra forma, de outro ângulo a si mesmo e ao mundo e então este não mais será o que é.
Depois de tanto caminhar, a consciência florescerá e no mundo se redimirá.
Esta é a minha convicção.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Palavras

Certas palavras saem da boca, desordenadas, taxando e espezinhando a alma de quem fala ou de quem ouve.
Palavras são vãs, saem pelo fluxo da respiração, por vezes calmas e arredondadas, por vezes ferozes e pontiagudas. Dependem apenas do fluxo da respiração.
Certas palavras saem da emoção do momento. Traduzem sentimentos diversos, passageiros, como passageiro é o momento em que são ditas.
Sob o influxo da situação vivida, frases são ditas sem exatidão, o gesto é realizado sem certeza de si mesmo. E cai em desgosto, posto que forte demais.
Os mecanismos de análise, o cérebro, os conceitos, a moral, tudo é secundário quando o ímpeto juvenil desanda a produzir gestos “manietados” pelo fluxo constante e feroz dos sentimentos.

E as palavras são vãs. Dissolvem-se no ar.
E é bom que assim seja. Não importa que sejam falsas ou verdadeiras.

Certos sentimentos não são bons aliados das melhores palavras.
Tenham, portanto, compaixão por alguém que fala apenas pela boca e solta palavras que sentimos que pesam no ar.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A cidade, nossa criação

“Que homem é o homem que não torna melhor o lugar onde mora?”
Com essa pergunta, Balian, traduz sua perplexidade diante daqueles que nada fazem pelo lugar onde moram.
E esta é a nossa perplexidade também. Seabra, pequena cidade da bela Chapada Diamantina, Bahia, se torna dia após dia, um lugar pior para se viver. Ruas esburacadas e sem arborização, praças quebradas e sem jardins, rios sujos e degradados e lixo jogado nos mais variados cantos da cidade.
O que estamos construindo para nós? Queremos ratos, baratas, pernilongos e outros insetos nocivos co-habitando em um mesmo espaço conosco?
Por que não considerar a cidade como a própria extensão de nossas casas? Nosso quintal? Nosso jardim?
Por que se isolar atrás de quatro grandes muros quando podemos ter todo um espaço exterior onde podemos partilhar com outros as belezas do lugar onde vivemos?
A riqueza do lugar onde habitamos não está nos grandes prédios que podemos construir ou na quantidade de carros e casarões que uma cidade possa possuir. Não, esta riqueza se encontra na qualidade de nossas ruas e praças, na qualidade do ar que respiramos ou da água que bebemos, na qualidade dos lugares aprazíveis que construímos ou se encontra no sentimento de pertencimento ao lugar que pouco a pouco vamos criando.
Uma cidade, como uma casa, é um ato de criação, um ato, portanto, divino, pois é divina nossa capacidade de criar e transformar o ambiente onde vivemos. E como toda criação, a cidade é reflexo daqueles que a habitam. E aqueles que a habitam mostram, através de sua criação a sua relação com o que é divino.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Nossos filhos

Quando olho meus filhos dormindo, brincando ou simplesmente sendo, sinto uma enorme esperança brotar dentro de mim.
Aposto neles, e no que faço por eles, que o dia de amanhã será melhor. Aposto neles, que serão adultos cidadãos, que criarão e darão sua parcela de contribuição para termos uma sociedade melhor.
Digo que continuarão sendo curiosos e corajosos; Terão amigos e solidão; viajarão muito em busca daquilo que para eles será fundamental; questionarão sempre e não se contentarão com respostas simplistas ou simplórias. Estarão de prontidão em busca do que é essencial e gostarão da boa música e de todas as formas de arte e principalmente a literária.
Serão bons amigos e primarão pela alegria de viver porque estão aprendendo que a felicidade é um direito dos vivos e a trarão bem enraizada no coração.
Respeitarão o silêncio porque saberão que só se obtém respostas às questões fundamentais através do contato com o profundo silêncio interior. Saberão também viver aquilo que dói porque a dor é da condição humana e é inevitável experimentá-la, porque o discernimento entre o bem e o mal é também fruto da vivência e compreensão acerca da dor pelas quais passamos.
A vida será olhada por eles como um milagre, um milagre e uma viagem, uma experiência de crescimento espiritual. Portanto, olharão os erros sem sentimentos de culpa, mas como fruto da inexperiência e perceberão seu próprio florescimento com humildade, gratidão e verdade.
Respeitarão a si próprios e aos outros e indignar-se-ão frente a estupidez humana que promove guerras e infelicidades em vez do perdão. Olharão de cima da montanha os vales profundos da alma e de dentro dos vales, enxergarão os picos luminosos do espírito.
Quando vejo meus filhos, a esperança em um mundo melhor cresce dentro de mim; quando vejo tantas crianças luminosas, com seus sorrisos puros e curiosos, amigos e humildes, tenho certeza de nossa imensa e bela responsabilidade como pais, como educadores, como amigos e irmãos, co-criadores de um mundo cada vez mais lindo.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Qual é a sua religião?

Qual a sua religião, professor? Por vezes me perguntam os alunos.
Uma pergunta como essa, embora feita de maneira direta, não pode ser respondida assim de chofre. É preciso que a resposta se estenda um pouco mais.
Em primeiro lugar, contraponho a pergunta com uma outra: como exercemos nossa religiosidade?
É sabido, que todas as grandes tradições tratam a prática da religiosidade dentro da ótica da amizade, da cooperação, da pureza de intenções, do respeito ao outro ser e consigo mesmo, dentro de uma cosmovisão de paz e fraternidade.
Em segundo lugar, respondo que minha religião é a do ser, é a profundidade com que trato a mim e as coisas que existem em meu entorno. É a minha relação de reverência para com os mistérios da vida que não me cabe saber. É o respeito, crescente para com as crianças, para com os animais, para com os vegetais e para com todas as outras formas de vida que existem no planeta, já que minha convicção religiosa diz que fazemos parte de uma teia de relações onde nenhum ser é superior ao outro e todos nutrem-se, de uma forma ou de outra, de todos. E onde o ser humano, com sua enorme capacidade de refletir sobre si próprio, tem por obrigação, zelar pela manutenção e equilíbrio desta rede de vida que se interdepende.
É uma religião diferente daquelas cuja obrigação dos fiéis é apenas freqüentar em dias marcados o seu culto para logo depois, ao sair de seu templo de meditação, afogar-se novamente em más ações, em desrespeito para com o próximo e para com todos os outros viventes que compõe a cadeia de vida do planeta.
A religião na qual acredito, é aquela cuja responsabilidade pelos meus atos não podem ser depositadas nas pedras das igrejas ou no colo dos sacerdotes ou nos ombros de Deus. A responsabilidade total de meus atos recai sobre mim, sobre minha vida, sobre a vida de todos os meus semelhantes e dessemelhantes. É uma religião onde não há culpa, nem pecado, mas sim ignorância, erro, experiência, que precisa ser o tempo todo pensada e repensada e principalmente possui como lema a humildade e possui profunda esperança em uma vida cada vez mais plena.
É uma religião que não possui dogmas, mas fé, e busca constante consciência alerta. E talvez por isso, nem mesmo possa ser chamada de religião, mas de religiosidade.

domingo, 24 de outubro de 2010

A doce alegria de aprender

A cada dia que passa aprendo mais uma coisinha, o que me traz mais prazer de viver. E o prazer de meu viver vai se dando através da emoção do ato de conhecer um pouco mais sobre as coisas. São pequenos vislumbres de poder olhar o mundo de modo mais individual, próprio, de um sentir único, diferente dos demais viventes e por isso mesmo, merecedor, como todos os outros, de respeito.

A cada dia que passa podemos admirar uma forma diferente. Não porque ela não existisse anteriormente, mas porque aguço meu olhar naquela direção e vejo o que não via, embora a muito estivesse lá. E o olhar que se maravilha com a forma vista, agora transmuta o ser internamente trazendo-lhe admiração pela vida que se revela. E o olhar vai se aprimorando vai crescendo em intensidade e profundidade com esse pequeno exercício de olhar e verdadeiramente ver.

Andamos como autômatos, acostumados a ver... não vemos. Criamos o hábito de achar que conhecemos e desperdiçamos enormes oportunidades de realmente conhecer. Somente quando sacudidos por algum evento externo a nós é que prestamos mais atenção. Um exemplo banal é com relação a nossa própria alimentação. Sabemos que certos alimentos não nos fazem bem e, no entanto, vamos postergando e comendo até que certo dia somos despertados por aquele mal que sabíamos viríamos a ter.

Andamos como autômatos porque acreditamos muito facilmente no que nos dizem, não investigamos por conta própria, vamos deixando a curiosidade a medida que crescemos e nos tornamos adultos.

Os adultos não são curiosos, temos uma mente sedentária impregnada de conceitos antigos trazidos pelos mortos passados. Não é a toa que Marx falava que os espíritos dos mortos atrapalhavam o dos vivos. Apenas reproduzimos padrões, comportamentos, todos deixados para dar continuidade a estrutura da sociedade. E por que perdemos o viço da curiosidade infantil? Por que deixamos de perguntar o porquê das coisas serem como são.

Quando nascemos e ainda crianças, somos únicos, indivíduos cuja capacidade de pensar por si próprio impressiona. Somos curiosos, pesquisadores do mundo que se oferece a nós, vamos buscando entre erros e acertos as respostas. Infligimos regras e rompemos barreiras. Mas por essa ousadia, pagamos um preço e vamos sendo obrigados a obedecer as regras de convívio social. Vamos perdendo o nosso foco e adquirindo o foco social, vamos deixando o indivíduo e assimilando a condição de igual aos outros. Vamos nos homogeneizando, vamos nos tornando iguais aos outros, pensando da mesma forma, do mesmo jeito. Vamos perdendo a capacidade de reinventar as coisas e nos conformando com a realidade criada por nossos mortos. Vamos nos acostumando com o que temos e nossa rebeldia natural vai dando lugar ao ser humano domado, seco, sem o viço da criatividade, da inventividade. Vamos nos tornando conformistas. E passamos a conviver com a mentira, com a injustiça social, com a hipocrisia, com a tensão da vida diária. Vamos deixando que tudo se torne amarelo, sem o nexo com o que torna a vida realmente digna de ser vivida. Vamos sendo uma corrente amorfa e sem conteúdo individual, vamos nos tornando uma massa de gente que vive sem viver e morre sem saber que estava vivo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tenho um dever

Como membro de uma comunidade da qual foi roubada a possibilidade de sonhar,
Coloco-me o dever de sonhar e criar o melhor dos sonhos para mim,
E cubro minha vida de possibilidades.
Invento magníficas viagens.
Vou a Londres, Paris e Amsterdã.
Lá, sou saudado como um grande fazedor de sonhos.
Cubro-me de estandartes coloridos e saio às ruas a contar a existência de um mundo melhor.
Construo possibilidades, invento alegrias e delícias de viver.
Falo do mundo como se fosse verde e invento belas verdades.
Tenho que fazer isto...
É minha alegria alentar as pessoas de meu mundo com lençóis de ouro e bordas de diamantes.
Quem sabe um dia, muitos não despertam e se vêem como reis e rainhas disfarçados.

Atenção Plena

Atenção, atenção plena é o que se propõe para todo aquele que deseja avançar na direção correta.

E o que é a atenção plena?

É estar atento a todos os movimentos que fazemos em nossa vida, é estar atento aos pensamentos que nos passam pela cabeça a todo instante. Atenção plena é prestar sempre o máximo de atenção a nossa respiração, o entrar e sair do ar em nossos pulmões é perceber a mágica constante das reações que nossas ações provocam. Atenção plena é viver o aqui e o agora, é não se deixar iludir pelos sentidos do corpo e olhar a direção na qual estão a nos conduzir. Perceber os passos, os pés no chão caminhando em direção aos atos do dia, o que se está fazendo agora. Perceber os movimentos dos dedos digitando, a respiração que não para, os pensamentos que explodem constantes na mente. Estar atento é não se permitir envolver de maneira inconsciente nos desatinos cotidianos.

Olhar uma flor com olhar direto, atento sobre ela é não permitir as pré-conceituações, as pré-fabricações de pontos de vistas envelhecidos pelo tempo, é olhá-la com olhar jovem, desbravador, feito o olhar de criança maravilhada com as coisas da vida.

Olhar novo, inteligente, sem respostas prontas, sem pré-julgamentos. Cada coisa é nova no seu momento. As coisas acontecem no aqui e agora e é nesse aqui e agora que cabem as respostas vindas das mais profundas camadas da consciência.

Atenção plena é condição para uma postura ética frente ao outro porque é um enxergar o outro do jeito que ele é, e por isso, respeitá-lo na sua condição de ser diferente, em sua alteridade.

Atenção plena exige trabalho, exercício constante de auto-observação, observação atenta de si, persistência, meditação.

Atenção plena é percepção clara da rede de interdependência que existe entre todos os seres vivos, é sentir-se parte do grande mistério chamado vida.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A era das incertezas

Vivemos a era da modernidade onde o tradicionalismo vai desaparecendo sem no entanto deixar marcas do que será o amanhã. O tradicionalismo vai deixando para trás as certezas do ontem e nos deixando as veias abertas para o incerto.
O que virá? O que será?
É o fim das certezas e o inicio da era das incertezas como nos diz o prêmio Nobel de química Ilya Prigogine.
É um tempo que nos exige sempre um estado de alerta para o devir. Impõe-nos um estado de criatividade constante, de superação constante ao que é agora. A modernidade exige da população participação e reflexidade. Não nos é mais permitido ações sem planejamento, não nos é mais permitido viver alheios aos problemas sociais. O mundo tornou-se um só, unificou-se através dos meios de comunicação, do sistema financeiro e comercial. A economia mundializou-se e a diversidade cultural passa a ser palco de grandes debates. Estamos no limiar de um novo mundo. A única certeza que temos é que certamente não viveremos do mesmo jeito que vivemos hoje, daqui a uns poucos 50 anos. A globalização política, econômica e cultural nos deixa claro a complexidade do mundo.
Repensar constantemente a nossa prática, a nossa vida, a teia de relações que estabelecemos e a nossa responsabilidade pela cadeia da vida que nos envolve é estar em consonância com esta nova era. Percebemos através da difusão das novas teorias sobre sistemas e através da ação prática dos homens no mundo e suas conseqüências, que só poderemos sobreviver neste planeta caso o pensemos como um sistema único e integrado vivo e em processo de transformação constante. Temos de nos pensar, cada um de nós, como um elo de uma gigantesca cadeia de interações que formam a chamada trama da vida.
Portanto, participar, interagir, conversar, trocar, expor, são formas positivas de ações que precisam ser feitas cada vez mais com consciência social e ecológica, pois são esses atos sociais que realizam a vida que será.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Aos que sabem envelhecer

Quanta liberdade vamos sentindo a medida que os anos vão se passando. Quanto prazer se sente quando nos permitimos transgredir por sermos mestres de nós mesmos.

A idade e a experiência, a vida bem vivida, trazem a sensação real de paz que se oferece no interior do ser porque nos vai permitindo viver cada dia, cada hora, no aqui, no momento, sem futuro e sem passado. A aceitação do que é, torna-nos maleáveis quanto aos erros e acertos cometidos no cotidiano; divertimos-nos mais com a vida. Vamos deixando de lado os medos que povoam os anos juvenis e avançamos muito mais profundo no desconhecido porque estamos atentos, vendo e passando por eles.

Com o juízo valorativo mais compreendido como fruto de um maravilhoso fluxo cultural, aprendemos mais fácil e mais rápido com os erros e acertos. Desenvolve-se em nós o equilíbrio, o ponto do meio, o olhar mais profundo e amoroso, e, sobretudo, o riso interior.

Deixar de ansiar e estar sempre no novo que a todo o momento acontece é viver a dinâmica do real do mundo, é estar mais irmanado a ele e, portanto, mais interativo com o mundo que acontece no agora. Deixar-se envelhecer é deixar as superficialidades de lado e mergulhar no ser, na inimaginável amplitude do ser.

Quanto mais velho fico, mais liberdade nos olhos vai aparecendo porque as cortinas do medo que antes os cobria vão desaparecendo diante da crescente compreensão dos processos internos de mim. O mundo se torna mais ilusório e mais real ao mesmo tempo porque ao perceber que é passagem é também matéria.

Se com a idade chega a fragilidade do corpo, chega também o fortalecimento do espírito, chega também um maior desabrochar da alma.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A educação nossa de cada dia

A educação é prioridade no Brasil diz o presidente Lula. A educação é prioridade na Bahia, diz o governador Wagner. E todos os outros governos brasileiros dizem em coro: a educação é prioridade no meu governo. Isto independente do partido que está no poder.
E por que os políticos dizem isso quando o que vemos em todo o país é uma educação esfacelada, com professores mal pagos, escolas sem infra-estrutura para funcionar, com falta de verbas, com falta de incentivo à capacitação de professores, com materiais didáticos de baixa qualidade, com salas entupidas de alunos, com professores fazendo greve para ter seus direitos atendidos, etc? Porque hoje, todos sabemos, que a educação é básica para o desenvolvimento de um país como provam os vários Estados Nacionais que investiram maciçamente em educação; porque se sabe que a educação é fundamental para o fomento da cidadania e da construção de um país mais justo e igualitário; porque se sabe que está na educação o futuro da humanidade. E esta verdade está em todas as bocas: desde o homem culto até aquelas pessoas analfabetas que lutam para manter seus filhos na escola porque pensam que só ali os filhos podem vir a ter alguma chance neste competitivo mercado de trabalho. E os políticos sabem disso. E falar em educação como prioridade gera votos, gera mídia, gera possibilidade de estar no poder por mais alguns anos. Quiçá, para sempre.
Há alguns anos atrás, havia poucas escolas no Brasil para muitos jovens que não tinham acesso a ela. Educação era privilégio dos filhos de ricos e poderosos fazendeiros donos do poder político, senhores do poder econômico que sabiam que era necessário ter seus filhos uma formação universitária para poderem continuar mandando no país. E assim era feito. Com o passar dos anos o acesso a educação democratizou-se. Aos pobres, a educação foi permitida, aliás, exigida por um sistema produtivo muito mais evoluído que necessitava de uma mão de obra mais qualificada, precisava de uma mão de obra com requisitos mínimos para poder mover uma fábrica ou necessitava de pessoas que soubessem ler o mínimo para entenderem os manuais de funcionamento das máquinas e até de mecanismos simples de computação e automação.
O sistema produtivo atual não aceita mais o analfabeto. Este fica completamente a margem, cabendo-lhe tão somente serviços domésticos e similares. O sistema precisa de mão-de-obra mais qualificada, alguns inclusive com formação universitária. Foi, portanto, a tecnificação do sistema produtivo que levou o Estado Brasileiro a investir um pouco mais em educação segundo as necessidades de um mercado que precisava de mão-de-obra qualificada que pudesse dar andamento à máquina burocrática, técnica e produtiva do país e... só isso. Infelizmente não houve uma política de Estado voltada para o aperfeiçoamento humano, voltada para a formação de valores humanísticos, voltada para a formação de seres humanos capazes de se inserir com qualidade em um mundo novo que se avizinhava e que vai se delineando cada vez mais como um mundo onde é necessário não apenas a formação técnica-científica, mas também a habilidade para tomar decisões, solucionar problemas, ter autonomia intelectual. O fim último da entrada da grande massa de estudantes que hoje estão em ambiente escolar, foi e continua sendo tão somente sua precária inserção no sistema produtivo.
Não há dúvida que o analfabetismo tem seus dias contados, o novo conceito agora é o do analfabeto funcional, conceito este existente apenas em países de terceiro mundo como o Brasil. Não resta dúvida também, que estamos implementando uma política educacional formadora de mão-de–obra de péssima qualidade e de formação humana nenhuma. Não há no Brasil uma política de Estado voltada para a formação de mão de obra de boa qualidade e de cidadãos aptos para o exercício da democracia. Não há interesse em se formar cidadãos críticos neste país.
As classes dominantes já não são as únicas a irem para as universidades mas são as únicas a fazerem os doutoramentos e pós-doutoramento que é exigência de mercado hoje. E as coisas afinal de contas, continuam muito parecidas, atores mudaram, o cenário mudou, a roupagem mudou, mas em essência, tudo permanece o mesmo. Se antes as massas populares eram analfabetas porque não havia necessidade de alfabetização para o trabalho, hoje, se elas entram nas escolas, é porque o mercado assim o exige, no entanto que lhes seja ensinado apenas o suficiente para lhes retirar do analfabetismo, apenas para que possam mover a máquina pública, a burocracia, e ponto final. Passamos agora a criar o analfabeto funcional. Cidadania, ora isso é coisa para os ricos, para a classe média alta que nem mais se preocupa com o terceiro grau, mas sim com os doutoramentos e os outros pós.
Para a massa da população resta uma educação de última qualidade, resta uma educação entregue as traças, cuja finalidade é apenas retirar o individuo do analfabetismo para que possa servir aos interesses do capital e render muitos, muitos votos para os políticos. E enquanto isto, o país vai a deriva, como um barco a velas, solto na imensidão de um grande oceano.
E as perguntas que deixo são: mudou a visão que as elites brasileiras têm da educação tanto as de ontem quanto as de hoje? Mudou a sua visão de sociedade?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Para Meditar

Como viver sem parar por uns momentos durante o dia para podermos observar a nós mesmos?
Como viver sem sentir o coração pulsando, o movimento dos braços, das pernas; sem sentir o próprio ser que caminha pelo dia?
Como viver sem olhar para onde estamos indo? Para o que estamos fazendo? Sem reverenciar a nos mesmos e aos outros pelos desafios cotidianos que enfrentamos?
Como viver sem olhar para dentro a permitir que o vazio cresça dentro de nós e a presença do que é divino se faça sentir?
Como é possível viver apenas para o lado de fora sem buscarmos o necessário equilíbrio que é encontrado somente quando usamos nossa sensibilidade, nossa interioridade?
É no silêncio interior, que cresce quando paramos de correr e fechamos nossos olhos, que percebemos a grandeza das coisas, a sutil música da existência, a paz e a felicidade que tanto almejamos.
É no silenciar da mente que nos deparamos com a beleza das coisas que nos rodeiam porque, somente assim, temos a experiência direta do sentir sem as muralhas julgadoras do pensamento.
É no silenciar da mente que conseguimos compreender nossa própria existência, nossa razão de ser, nosso delírio, nosso propósito, a divindade que também reside em nós; a música celestial que recobre nosso planeta e a nós mesmos.
Sem silenciarmos a mente, mesmos que por uns poucos momentos, é impossível sentirmos o perdão, a sabedoria, a vocação inerente a todos os seres humanos para o amor.
Silenciar a mente, portanto, não é um luxo, uma atitude de elite, uma ociosidade ou um momento de devaneio, é uma necessidade do espírito que precisa ser ouvido em sua tão infinita beleza e sabedoria. Uma jóia que nos dá força, coragem, energia, discernimento e amor para o profundo ato que é viver.

Queimadas

Mais um Setembro se inicia
E mais uma vez se inicia também
A queima de minhas matas.

Por que me tratam assim?
Por que me despem de minhas verdes vestes de forma tão brutal?
Acaso ando eu a tratar tão mal meus filhos diletos?
Acaso lhes deixo sem água para matar vossa sede
Ou alimento para saciar vossa fome?

Vocês humanos são meus filhos diletos

A vocês dei não somente vida como aos outros animais
Mas também inteligência para melhor me conhecer
E extraírem tesouros que possuo escondidos
Em locais que só com sua inteligência podem ser alcançados

A vocês dei abundância de água, de terra e ar
E no entanto, vós, com suas mesquinhas iras, suas intestinas lutas
De seres humanos imaturos, tocam fogo em minhas verdes camadas
Que ressecam minha pele, matam animais, destroem rios, acabam
Com a diversidade da vida e poluem o ar

O que querem vocês?

Alguém, alhures, já disse que fazer mal a terra
É fazer mal aos filhos da terra
E todos vocês são meus filhos
Vieram de minhas entranhas e para lá hão de voltar.

Por que maltratam a mim e a seus irmãos irracionais?
Acaso não me reconheceis como sua mãe?
Acaso não reconheceis os outros animais como vossos irmãos?
Quando os gerei com sua inteligência
Pensei no melhor
Pensei no mais belo de minha criação
Pensei no apogeu de minha criatividade
Mas não pensei que esta poderia ser também
A minha própria destruição e de todos os filhos outros que gerei

Sei que tentei o belo, sei que tentei o bom
No entanto, não foi o suficiente
Não foi o bastante lhes dar a inteligência
Era preciso sobretudo lhes dar a sabedoria e o amor
Que ficou escondido em algum lugar
Guardado no fundo de seu imaturo peito

E por isto, vendo hoje os Setembros chegarem, vendo os Outubros e
Os outros meses quentes chegarem, olho para meus outros tantos
Filhos mortos e feridos por seu insano ato
De queimar minhas verdes coberturas, e lhes peço perdão

Às vezes por ter criado vocês humanos,
Às vezes por ter esquecido de lhes colocar
Um pouco mais de amor no coração

Sei que foi por pouco, sei que foi por um triz
O amor apenas não ficou a vista de vocês
Pensei que com a grande inteligência que lhes provi
Vocês o encontrassem

Mas como dói meu erro

E agora sou obrigada a dizer:

Filhos, como mãe, como terra,
Como senhora de toda a criação deste planeta
Se quiserdes continuar a existir cá em mim,
Pensem no que estão a fazer
Reflitam sobre a destruição que provocais e usem um pouco mais
Aquilo que de bom coração deixei a vocês:

A inteligência.