segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Palavras

Certas palavras saem da boca, desordenadas, taxando e espezinhando a alma de quem fala ou de quem ouve.
Palavras são vãs, saem pelo fluxo da respiração, por vezes calmas e arredondadas, por vezes ferozes e pontiagudas. Dependem apenas do fluxo da respiração.
Certas palavras saem da emoção do momento. Traduzem sentimentos diversos, passageiros, como passageiro é o momento em que são ditas.
Sob o influxo da situação vivida, frases são ditas sem exatidão, o gesto é realizado sem certeza de si mesmo. E cai em desgosto, posto que forte demais.
Os mecanismos de análise, o cérebro, os conceitos, a moral, tudo é secundário quando o ímpeto juvenil desanda a produzir gestos “manietados” pelo fluxo constante e feroz dos sentimentos.

E as palavras são vãs. Dissolvem-se no ar.
E é bom que assim seja. Não importa que sejam falsas ou verdadeiras.

Certos sentimentos não são bons aliados das melhores palavras.
Tenham, portanto, compaixão por alguém que fala apenas pela boca e solta palavras que sentimos que pesam no ar.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A cidade, nossa criação

“Que homem é o homem que não torna melhor o lugar onde mora?”
Com essa pergunta, Balian, traduz sua perplexidade diante daqueles que nada fazem pelo lugar onde moram.
E esta é a nossa perplexidade também. Seabra, pequena cidade da bela Chapada Diamantina, Bahia, se torna dia após dia, um lugar pior para se viver. Ruas esburacadas e sem arborização, praças quebradas e sem jardins, rios sujos e degradados e lixo jogado nos mais variados cantos da cidade.
O que estamos construindo para nós? Queremos ratos, baratas, pernilongos e outros insetos nocivos co-habitando em um mesmo espaço conosco?
Por que não considerar a cidade como a própria extensão de nossas casas? Nosso quintal? Nosso jardim?
Por que se isolar atrás de quatro grandes muros quando podemos ter todo um espaço exterior onde podemos partilhar com outros as belezas do lugar onde vivemos?
A riqueza do lugar onde habitamos não está nos grandes prédios que podemos construir ou na quantidade de carros e casarões que uma cidade possa possuir. Não, esta riqueza se encontra na qualidade de nossas ruas e praças, na qualidade do ar que respiramos ou da água que bebemos, na qualidade dos lugares aprazíveis que construímos ou se encontra no sentimento de pertencimento ao lugar que pouco a pouco vamos criando.
Uma cidade, como uma casa, é um ato de criação, um ato, portanto, divino, pois é divina nossa capacidade de criar e transformar o ambiente onde vivemos. E como toda criação, a cidade é reflexo daqueles que a habitam. E aqueles que a habitam mostram, através de sua criação a sua relação com o que é divino.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Nossos filhos

Quando olho meus filhos dormindo, brincando ou simplesmente sendo, sinto uma enorme esperança brotar dentro de mim.
Aposto neles, e no que faço por eles, que o dia de amanhã será melhor. Aposto neles, que serão adultos cidadãos, que criarão e darão sua parcela de contribuição para termos uma sociedade melhor.
Digo que continuarão sendo curiosos e corajosos; Terão amigos e solidão; viajarão muito em busca daquilo que para eles será fundamental; questionarão sempre e não se contentarão com respostas simplistas ou simplórias. Estarão de prontidão em busca do que é essencial e gostarão da boa música e de todas as formas de arte e principalmente a literária.
Serão bons amigos e primarão pela alegria de viver porque estão aprendendo que a felicidade é um direito dos vivos e a trarão bem enraizada no coração.
Respeitarão o silêncio porque saberão que só se obtém respostas às questões fundamentais através do contato com o profundo silêncio interior. Saberão também viver aquilo que dói porque a dor é da condição humana e é inevitável experimentá-la, porque o discernimento entre o bem e o mal é também fruto da vivência e compreensão acerca da dor pelas quais passamos.
A vida será olhada por eles como um milagre, um milagre e uma viagem, uma experiência de crescimento espiritual. Portanto, olharão os erros sem sentimentos de culpa, mas como fruto da inexperiência e perceberão seu próprio florescimento com humildade, gratidão e verdade.
Respeitarão a si próprios e aos outros e indignar-se-ão frente a estupidez humana que promove guerras e infelicidades em vez do perdão. Olharão de cima da montanha os vales profundos da alma e de dentro dos vales, enxergarão os picos luminosos do espírito.
Quando vejo meus filhos, a esperança em um mundo melhor cresce dentro de mim; quando vejo tantas crianças luminosas, com seus sorrisos puros e curiosos, amigos e humildes, tenho certeza de nossa imensa e bela responsabilidade como pais, como educadores, como amigos e irmãos, co-criadores de um mundo cada vez mais lindo.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Qual é a sua religião?

Qual a sua religião, professor? Por vezes me perguntam os alunos.
Uma pergunta como essa, embora feita de maneira direta, não pode ser respondida assim de chofre. É preciso que a resposta se estenda um pouco mais.
Em primeiro lugar, contraponho a pergunta com uma outra: como exercemos nossa religiosidade?
É sabido, que todas as grandes tradições tratam a prática da religiosidade dentro da ótica da amizade, da cooperação, da pureza de intenções, do respeito ao outro ser e consigo mesmo, dentro de uma cosmovisão de paz e fraternidade.
Em segundo lugar, respondo que minha religião é a do ser, é a profundidade com que trato a mim e as coisas que existem em meu entorno. É a minha relação de reverência para com os mistérios da vida que não me cabe saber. É o respeito, crescente para com as crianças, para com os animais, para com os vegetais e para com todas as outras formas de vida que existem no planeta, já que minha convicção religiosa diz que fazemos parte de uma teia de relações onde nenhum ser é superior ao outro e todos nutrem-se, de uma forma ou de outra, de todos. E onde o ser humano, com sua enorme capacidade de refletir sobre si próprio, tem por obrigação, zelar pela manutenção e equilíbrio desta rede de vida que se interdepende.
É uma religião diferente daquelas cuja obrigação dos fiéis é apenas freqüentar em dias marcados o seu culto para logo depois, ao sair de seu templo de meditação, afogar-se novamente em más ações, em desrespeito para com o próximo e para com todos os outros viventes que compõe a cadeia de vida do planeta.
A religião na qual acredito, é aquela cuja responsabilidade pelos meus atos não podem ser depositadas nas pedras das igrejas ou no colo dos sacerdotes ou nos ombros de Deus. A responsabilidade total de meus atos recai sobre mim, sobre minha vida, sobre a vida de todos os meus semelhantes e dessemelhantes. É uma religião onde não há culpa, nem pecado, mas sim ignorância, erro, experiência, que precisa ser o tempo todo pensada e repensada e principalmente possui como lema a humildade e possui profunda esperança em uma vida cada vez mais plena.
É uma religião que não possui dogmas, mas fé, e busca constante consciência alerta. E talvez por isso, nem mesmo possa ser chamada de religião, mas de religiosidade.

domingo, 24 de outubro de 2010

A doce alegria de aprender

A cada dia que passa aprendo mais uma coisinha, o que me traz mais prazer de viver. E o prazer de meu viver vai se dando através da emoção do ato de conhecer um pouco mais sobre as coisas. São pequenos vislumbres de poder olhar o mundo de modo mais individual, próprio, de um sentir único, diferente dos demais viventes e por isso mesmo, merecedor, como todos os outros, de respeito.

A cada dia que passa podemos admirar uma forma diferente. Não porque ela não existisse anteriormente, mas porque aguço meu olhar naquela direção e vejo o que não via, embora a muito estivesse lá. E o olhar que se maravilha com a forma vista, agora transmuta o ser internamente trazendo-lhe admiração pela vida que se revela. E o olhar vai se aprimorando vai crescendo em intensidade e profundidade com esse pequeno exercício de olhar e verdadeiramente ver.

Andamos como autômatos, acostumados a ver... não vemos. Criamos o hábito de achar que conhecemos e desperdiçamos enormes oportunidades de realmente conhecer. Somente quando sacudidos por algum evento externo a nós é que prestamos mais atenção. Um exemplo banal é com relação a nossa própria alimentação. Sabemos que certos alimentos não nos fazem bem e, no entanto, vamos postergando e comendo até que certo dia somos despertados por aquele mal que sabíamos viríamos a ter.

Andamos como autômatos porque acreditamos muito facilmente no que nos dizem, não investigamos por conta própria, vamos deixando a curiosidade a medida que crescemos e nos tornamos adultos.

Os adultos não são curiosos, temos uma mente sedentária impregnada de conceitos antigos trazidos pelos mortos passados. Não é a toa que Marx falava que os espíritos dos mortos atrapalhavam o dos vivos. Apenas reproduzimos padrões, comportamentos, todos deixados para dar continuidade a estrutura da sociedade. E por que perdemos o viço da curiosidade infantil? Por que deixamos de perguntar o porquê das coisas serem como são.

Quando nascemos e ainda crianças, somos únicos, indivíduos cuja capacidade de pensar por si próprio impressiona. Somos curiosos, pesquisadores do mundo que se oferece a nós, vamos buscando entre erros e acertos as respostas. Infligimos regras e rompemos barreiras. Mas por essa ousadia, pagamos um preço e vamos sendo obrigados a obedecer as regras de convívio social. Vamos perdendo o nosso foco e adquirindo o foco social, vamos deixando o indivíduo e assimilando a condição de igual aos outros. Vamos nos homogeneizando, vamos nos tornando iguais aos outros, pensando da mesma forma, do mesmo jeito. Vamos perdendo a capacidade de reinventar as coisas e nos conformando com a realidade criada por nossos mortos. Vamos nos acostumando com o que temos e nossa rebeldia natural vai dando lugar ao ser humano domado, seco, sem o viço da criatividade, da inventividade. Vamos nos tornando conformistas. E passamos a conviver com a mentira, com a injustiça social, com a hipocrisia, com a tensão da vida diária. Vamos deixando que tudo se torne amarelo, sem o nexo com o que torna a vida realmente digna de ser vivida. Vamos sendo uma corrente amorfa e sem conteúdo individual, vamos nos tornando uma massa de gente que vive sem viver e morre sem saber que estava vivo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tenho um dever

Como membro de uma comunidade da qual foi roubada a possibilidade de sonhar,
Coloco-me o dever de sonhar e criar o melhor dos sonhos para mim,
E cubro minha vida de possibilidades.
Invento magníficas viagens.
Vou a Londres, Paris e Amsterdã.
Lá, sou saudado como um grande fazedor de sonhos.
Cubro-me de estandartes coloridos e saio às ruas a contar a existência de um mundo melhor.
Construo possibilidades, invento alegrias e delícias de viver.
Falo do mundo como se fosse verde e invento belas verdades.
Tenho que fazer isto...
É minha alegria alentar as pessoas de meu mundo com lençóis de ouro e bordas de diamantes.
Quem sabe um dia, muitos não despertam e se vêem como reis e rainhas disfarçados.

Atenção Plena

Atenção, atenção plena é o que se propõe para todo aquele que deseja avançar na direção correta.

E o que é a atenção plena?

É estar atento a todos os movimentos que fazemos em nossa vida, é estar atento aos pensamentos que nos passam pela cabeça a todo instante. Atenção plena é prestar sempre o máximo de atenção a nossa respiração, o entrar e sair do ar em nossos pulmões é perceber a mágica constante das reações que nossas ações provocam. Atenção plena é viver o aqui e o agora, é não se deixar iludir pelos sentidos do corpo e olhar a direção na qual estão a nos conduzir. Perceber os passos, os pés no chão caminhando em direção aos atos do dia, o que se está fazendo agora. Perceber os movimentos dos dedos digitando, a respiração que não para, os pensamentos que explodem constantes na mente. Estar atento é não se permitir envolver de maneira inconsciente nos desatinos cotidianos.

Olhar uma flor com olhar direto, atento sobre ela é não permitir as pré-conceituações, as pré-fabricações de pontos de vistas envelhecidos pelo tempo, é olhá-la com olhar jovem, desbravador, feito o olhar de criança maravilhada com as coisas da vida.

Olhar novo, inteligente, sem respostas prontas, sem pré-julgamentos. Cada coisa é nova no seu momento. As coisas acontecem no aqui e agora e é nesse aqui e agora que cabem as respostas vindas das mais profundas camadas da consciência.

Atenção plena é condição para uma postura ética frente ao outro porque é um enxergar o outro do jeito que ele é, e por isso, respeitá-lo na sua condição de ser diferente, em sua alteridade.

Atenção plena exige trabalho, exercício constante de auto-observação, observação atenta de si, persistência, meditação.

Atenção plena é percepção clara da rede de interdependência que existe entre todos os seres vivos, é sentir-se parte do grande mistério chamado vida.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A era das incertezas

Vivemos a era da modernidade onde o tradicionalismo vai desaparecendo sem no entanto deixar marcas do que será o amanhã. O tradicionalismo vai deixando para trás as certezas do ontem e nos deixando as veias abertas para o incerto.
O que virá? O que será?
É o fim das certezas e o inicio da era das incertezas como nos diz o prêmio Nobel de química Ilya Prigogine.
É um tempo que nos exige sempre um estado de alerta para o devir. Impõe-nos um estado de criatividade constante, de superação constante ao que é agora. A modernidade exige da população participação e reflexidade. Não nos é mais permitido ações sem planejamento, não nos é mais permitido viver alheios aos problemas sociais. O mundo tornou-se um só, unificou-se através dos meios de comunicação, do sistema financeiro e comercial. A economia mundializou-se e a diversidade cultural passa a ser palco de grandes debates. Estamos no limiar de um novo mundo. A única certeza que temos é que certamente não viveremos do mesmo jeito que vivemos hoje, daqui a uns poucos 50 anos. A globalização política, econômica e cultural nos deixa claro a complexidade do mundo.
Repensar constantemente a nossa prática, a nossa vida, a teia de relações que estabelecemos e a nossa responsabilidade pela cadeia da vida que nos envolve é estar em consonância com esta nova era. Percebemos através da difusão das novas teorias sobre sistemas e através da ação prática dos homens no mundo e suas conseqüências, que só poderemos sobreviver neste planeta caso o pensemos como um sistema único e integrado vivo e em processo de transformação constante. Temos de nos pensar, cada um de nós, como um elo de uma gigantesca cadeia de interações que formam a chamada trama da vida.
Portanto, participar, interagir, conversar, trocar, expor, são formas positivas de ações que precisam ser feitas cada vez mais com consciência social e ecológica, pois são esses atos sociais que realizam a vida que será.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Aos que sabem envelhecer

Quanta liberdade vamos sentindo a medida que os anos vão se passando. Quanto prazer se sente quando nos permitimos transgredir por sermos mestres de nós mesmos.

A idade e a experiência, a vida bem vivida, trazem a sensação real de paz que se oferece no interior do ser porque nos vai permitindo viver cada dia, cada hora, no aqui, no momento, sem futuro e sem passado. A aceitação do que é, torna-nos maleáveis quanto aos erros e acertos cometidos no cotidiano; divertimos-nos mais com a vida. Vamos deixando de lado os medos que povoam os anos juvenis e avançamos muito mais profundo no desconhecido porque estamos atentos, vendo e passando por eles.

Com o juízo valorativo mais compreendido como fruto de um maravilhoso fluxo cultural, aprendemos mais fácil e mais rápido com os erros e acertos. Desenvolve-se em nós o equilíbrio, o ponto do meio, o olhar mais profundo e amoroso, e, sobretudo, o riso interior.

Deixar de ansiar e estar sempre no novo que a todo o momento acontece é viver a dinâmica do real do mundo, é estar mais irmanado a ele e, portanto, mais interativo com o mundo que acontece no agora. Deixar-se envelhecer é deixar as superficialidades de lado e mergulhar no ser, na inimaginável amplitude do ser.

Quanto mais velho fico, mais liberdade nos olhos vai aparecendo porque as cortinas do medo que antes os cobria vão desaparecendo diante da crescente compreensão dos processos internos de mim. O mundo se torna mais ilusório e mais real ao mesmo tempo porque ao perceber que é passagem é também matéria.

Se com a idade chega a fragilidade do corpo, chega também o fortalecimento do espírito, chega também um maior desabrochar da alma.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A educação nossa de cada dia

A educação é prioridade no Brasil diz o presidente Lula. A educação é prioridade na Bahia, diz o governador Wagner. E todos os outros governos brasileiros dizem em coro: a educação é prioridade no meu governo. Isto independente do partido que está no poder.
E por que os políticos dizem isso quando o que vemos em todo o país é uma educação esfacelada, com professores mal pagos, escolas sem infra-estrutura para funcionar, com falta de verbas, com falta de incentivo à capacitação de professores, com materiais didáticos de baixa qualidade, com salas entupidas de alunos, com professores fazendo greve para ter seus direitos atendidos, etc? Porque hoje, todos sabemos, que a educação é básica para o desenvolvimento de um país como provam os vários Estados Nacionais que investiram maciçamente em educação; porque se sabe que a educação é fundamental para o fomento da cidadania e da construção de um país mais justo e igualitário; porque se sabe que está na educação o futuro da humanidade. E esta verdade está em todas as bocas: desde o homem culto até aquelas pessoas analfabetas que lutam para manter seus filhos na escola porque pensam que só ali os filhos podem vir a ter alguma chance neste competitivo mercado de trabalho. E os políticos sabem disso. E falar em educação como prioridade gera votos, gera mídia, gera possibilidade de estar no poder por mais alguns anos. Quiçá, para sempre.
Há alguns anos atrás, havia poucas escolas no Brasil para muitos jovens que não tinham acesso a ela. Educação era privilégio dos filhos de ricos e poderosos fazendeiros donos do poder político, senhores do poder econômico que sabiam que era necessário ter seus filhos uma formação universitária para poderem continuar mandando no país. E assim era feito. Com o passar dos anos o acesso a educação democratizou-se. Aos pobres, a educação foi permitida, aliás, exigida por um sistema produtivo muito mais evoluído que necessitava de uma mão de obra mais qualificada, precisava de uma mão de obra com requisitos mínimos para poder mover uma fábrica ou necessitava de pessoas que soubessem ler o mínimo para entenderem os manuais de funcionamento das máquinas e até de mecanismos simples de computação e automação.
O sistema produtivo atual não aceita mais o analfabeto. Este fica completamente a margem, cabendo-lhe tão somente serviços domésticos e similares. O sistema precisa de mão-de-obra mais qualificada, alguns inclusive com formação universitária. Foi, portanto, a tecnificação do sistema produtivo que levou o Estado Brasileiro a investir um pouco mais em educação segundo as necessidades de um mercado que precisava de mão-de-obra qualificada que pudesse dar andamento à máquina burocrática, técnica e produtiva do país e... só isso. Infelizmente não houve uma política de Estado voltada para o aperfeiçoamento humano, voltada para a formação de valores humanísticos, voltada para a formação de seres humanos capazes de se inserir com qualidade em um mundo novo que se avizinhava e que vai se delineando cada vez mais como um mundo onde é necessário não apenas a formação técnica-científica, mas também a habilidade para tomar decisões, solucionar problemas, ter autonomia intelectual. O fim último da entrada da grande massa de estudantes que hoje estão em ambiente escolar, foi e continua sendo tão somente sua precária inserção no sistema produtivo.
Não há dúvida que o analfabetismo tem seus dias contados, o novo conceito agora é o do analfabeto funcional, conceito este existente apenas em países de terceiro mundo como o Brasil. Não resta dúvida também, que estamos implementando uma política educacional formadora de mão-de–obra de péssima qualidade e de formação humana nenhuma. Não há no Brasil uma política de Estado voltada para a formação de mão de obra de boa qualidade e de cidadãos aptos para o exercício da democracia. Não há interesse em se formar cidadãos críticos neste país.
As classes dominantes já não são as únicas a irem para as universidades mas são as únicas a fazerem os doutoramentos e pós-doutoramento que é exigência de mercado hoje. E as coisas afinal de contas, continuam muito parecidas, atores mudaram, o cenário mudou, a roupagem mudou, mas em essência, tudo permanece o mesmo. Se antes as massas populares eram analfabetas porque não havia necessidade de alfabetização para o trabalho, hoje, se elas entram nas escolas, é porque o mercado assim o exige, no entanto que lhes seja ensinado apenas o suficiente para lhes retirar do analfabetismo, apenas para que possam mover a máquina pública, a burocracia, e ponto final. Passamos agora a criar o analfabeto funcional. Cidadania, ora isso é coisa para os ricos, para a classe média alta que nem mais se preocupa com o terceiro grau, mas sim com os doutoramentos e os outros pós.
Para a massa da população resta uma educação de última qualidade, resta uma educação entregue as traças, cuja finalidade é apenas retirar o individuo do analfabetismo para que possa servir aos interesses do capital e render muitos, muitos votos para os políticos. E enquanto isto, o país vai a deriva, como um barco a velas, solto na imensidão de um grande oceano.
E as perguntas que deixo são: mudou a visão que as elites brasileiras têm da educação tanto as de ontem quanto as de hoje? Mudou a sua visão de sociedade?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Para Meditar

Como viver sem parar por uns momentos durante o dia para podermos observar a nós mesmos?
Como viver sem sentir o coração pulsando, o movimento dos braços, das pernas; sem sentir o próprio ser que caminha pelo dia?
Como viver sem olhar para onde estamos indo? Para o que estamos fazendo? Sem reverenciar a nos mesmos e aos outros pelos desafios cotidianos que enfrentamos?
Como viver sem olhar para dentro a permitir que o vazio cresça dentro de nós e a presença do que é divino se faça sentir?
Como é possível viver apenas para o lado de fora sem buscarmos o necessário equilíbrio que é encontrado somente quando usamos nossa sensibilidade, nossa interioridade?
É no silêncio interior, que cresce quando paramos de correr e fechamos nossos olhos, que percebemos a grandeza das coisas, a sutil música da existência, a paz e a felicidade que tanto almejamos.
É no silenciar da mente que nos deparamos com a beleza das coisas que nos rodeiam porque, somente assim, temos a experiência direta do sentir sem as muralhas julgadoras do pensamento.
É no silenciar da mente que conseguimos compreender nossa própria existência, nossa razão de ser, nosso delírio, nosso propósito, a divindade que também reside em nós; a música celestial que recobre nosso planeta e a nós mesmos.
Sem silenciarmos a mente, mesmos que por uns poucos momentos, é impossível sentirmos o perdão, a sabedoria, a vocação inerente a todos os seres humanos para o amor.
Silenciar a mente, portanto, não é um luxo, uma atitude de elite, uma ociosidade ou um momento de devaneio, é uma necessidade do espírito que precisa ser ouvido em sua tão infinita beleza e sabedoria. Uma jóia que nos dá força, coragem, energia, discernimento e amor para o profundo ato que é viver.

Queimadas

Mais um Setembro se inicia
E mais uma vez se inicia também
A queima de minhas matas.

Por que me tratam assim?
Por que me despem de minhas verdes vestes de forma tão brutal?
Acaso ando eu a tratar tão mal meus filhos diletos?
Acaso lhes deixo sem água para matar vossa sede
Ou alimento para saciar vossa fome?

Vocês humanos são meus filhos diletos

A vocês dei não somente vida como aos outros animais
Mas também inteligência para melhor me conhecer
E extraírem tesouros que possuo escondidos
Em locais que só com sua inteligência podem ser alcançados

A vocês dei abundância de água, de terra e ar
E no entanto, vós, com suas mesquinhas iras, suas intestinas lutas
De seres humanos imaturos, tocam fogo em minhas verdes camadas
Que ressecam minha pele, matam animais, destroem rios, acabam
Com a diversidade da vida e poluem o ar

O que querem vocês?

Alguém, alhures, já disse que fazer mal a terra
É fazer mal aos filhos da terra
E todos vocês são meus filhos
Vieram de minhas entranhas e para lá hão de voltar.

Por que maltratam a mim e a seus irmãos irracionais?
Acaso não me reconheceis como sua mãe?
Acaso não reconheceis os outros animais como vossos irmãos?
Quando os gerei com sua inteligência
Pensei no melhor
Pensei no mais belo de minha criação
Pensei no apogeu de minha criatividade
Mas não pensei que esta poderia ser também
A minha própria destruição e de todos os filhos outros que gerei

Sei que tentei o belo, sei que tentei o bom
No entanto, não foi o suficiente
Não foi o bastante lhes dar a inteligência
Era preciso sobretudo lhes dar a sabedoria e o amor
Que ficou escondido em algum lugar
Guardado no fundo de seu imaturo peito

E por isto, vendo hoje os Setembros chegarem, vendo os Outubros e
Os outros meses quentes chegarem, olho para meus outros tantos
Filhos mortos e feridos por seu insano ato
De queimar minhas verdes coberturas, e lhes peço perdão

Às vezes por ter criado vocês humanos,
Às vezes por ter esquecido de lhes colocar
Um pouco mais de amor no coração

Sei que foi por pouco, sei que foi por um triz
O amor apenas não ficou a vista de vocês
Pensei que com a grande inteligência que lhes provi
Vocês o encontrassem

Mas como dói meu erro

E agora sou obrigada a dizer:

Filhos, como mãe, como terra,
Como senhora de toda a criação deste planeta
Se quiserdes continuar a existir cá em mim,
Pensem no que estão a fazer
Reflitam sobre a destruição que provocais e usem um pouco mais
Aquilo que de bom coração deixei a vocês:

A inteligência.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eu não sou o único

Eu não sou o único que busca plantar flores por onde passa!
Eu não sou o único que busca na alegria, na celebração e no amor, uma nova forma de partilhar a existência!
E eu não sou o único que percebe o planeta terra como um todo orgânico, integrado, como uma entidade viva que pulsa junto com tudo que existe nele!

Não, são milhões de pessoas que assim pensam, cada um com seu jeito, com seu sistema de crenças, melhorar a vida e lutar por um planeta mais irmão.

Enganam-se aqueles que se sentem saudosos dos tempos idos, como se tivesse havido na terra um tempo onde as pessoas vivessem na mais plena harmonia. Não! A história nos ensina que a terra sempre foi palco das mais sangrentas lutas de homens contra homens.

A natureza sempre nos impôs uma luta árdua pela sobrevivência e esta implicava na visão de milhares de gerações anteriores, na dominação de etnias sobre etnias, de homens sobre homens.

O que se pode dizer é que nossa historia foi uma história com alguns momentos de paz. Sobretudo no século XX.

No entanto, este famigerado século que foi palco de dois dos mais tenebrosos momentos de nossa história, a I e II guerra mundial, abriu-nos também grandes possibilidades: o horror da guerra gerou uma mentalidade de paz, gerou uma ciência universalista e aproximou nossa percepção daquilo que é divino em nós.

Neste século, aprendemos a superar enormes tensões que poderiam ter nos conduzido a uma catástrofe final; geramos uma quantidade de alimentos impossível de pensar sem a ajuda da tecnologia e da ciência juntas e aprimoramos nossa relação com a terra e com os seus outros habitantes com a formulação de propostas de economia solidária, ecovilages, sustentabilidade, etc...

O ser humano tornou-se mais místico e o auto-conhecimento, última grande fronteira do conhecimento, é buscado cada vez mais através de práticas de meditação, yoga e outras vertentes que buscam o conhecimento de si.

A paz enfim, tornou-se uma possibilidade real. O mundo unificou-se e a multiculturalidade passou a ser fonte de enriquecimento material e imaterial para os diversos povos espalhados pelo nosso planeta e não mais motivo de guerra.

É claro que muitos, ainda assentados em posturas atávicas; aqueles que não percebem a nova ordem mundial que se instalou exigindo uma nova postura frente a vida, insistem em manter-se rígidos e infelizes, infelicitando a vida de tantos outros. É claro que muitos ainda não perceberam que o novo paradigma é o da solidariedade, da sociabilidade, da comunidade.

Mas como disse anteriormente, é no hoje que reside a possibilidade de paz real e de transformação interior e milhões já se aperceberam disso e milhões são os que por onde passam plantam flores e alegrias.
E você? Está plantando flores e dançando alegrias por onde passa?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O buscador

Porque o buscador pode dançar e pode voar.
Porque ele é espaço, terra e ar.
Porque está muito além da mente, muito além das análises das conjecturas e das estruturas.
Porque é Deus e está em todas as coisas e todas as coisas estão contidas nele.

Portanto, não tentes compreender o buscador com tua mente mundana, mas tente senti-lo com o teu coração puro.

Tua razão é material e somente coisas materiais a ela é cabível compreender.

Como podes compreender ao buscador que é energia, universo, éter, inacessível à tua razão material?

Como poder querer que o buscador haja segundo os padrões de tua estreita conduta e visão, se onde ele habita não existem padrões de comportamento, mas apenas consciência e dança?

Como podes compreender a ele que nunca morre e está para muito além dos limites de tua finita vida?

Somente quando vires o buscador no esplendor de seu próprio sol é que compreenderás o que digo; somente então perceberás o estranho que é a tua pequena razão humana querer a ele compreender: o próprio sol.

E tu, apenas quando chegares ao buscador poderás compreender, porque aí, já não serás tu, mas também o sol, também a terra, também raízes, também o próprio buscador. Serás ele e assim compreenderás a ti mesmo porque serás Deus e uno com o universo e toda a grandeza da criação.

sábado, 14 de agosto de 2010

Página em Branco

Quando olho para uma folha em branco, penso logo em como preenchê-la. O que escrever nela? Como mostrá-la a outros revestida com nova roupagem, com um dado significado?

Olho para a página e sinto que ela tem uma mensagem interna, que já nasce predisposta a certo tipo de texto. Pode ser um texto afetivo ou científico, um texto pedagógico ou literário, um poema ou uma carta. Uma crônica ou um conto. Talvez um romance ou quem sabe a letra de uma melodia ou até mesmo uma receita fundamental abridora de tantos apetites.

Uma página em branco desperta em mim ação a realizar, é preciso dar-lhe sentido, significado histórico, fazê-la cumprir seu desconhecido destino. Abrir-lhe o o coração, despertá-la para o mundo.

O fato é que definitivamente a folha em branco não nasceu para ser rasgada ou jogada no lixo. Não nasceu imprestável para o ato de cobri-la de letras com tantas mensagens que poderia ter.

Não!

Ela tem uma missão, precisa ter um significado social, dar sua mensagem, por menor que seja, ser luz para tantos, pois os textos nela gravados podem iluminar uma consciência ou talvez um sorriso para um rosto pálido.

Uma página em branco é como uma criança sobre a qual os adultos gravam em sua memória experiências que as marcarão para o resto de suas vidas.

Como nas páginas em branco, gravemos então na memória de nossas crianças experiências positivas, experiências que lhes digam que verdadeiramente vale a pena viver este mundo. Experiências que as preencham de luz e beleza. Essa é uma das tantas ações possíveis que irá deixar o mundo cada vez melhor.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nossos amigos

Ah se pudesse agora erguer uma taça de vinho da melhor qualidade para brindar com todos os amigos que estiveram próximos a mim. Brindaria a todos eles pelo que me fizeram viver até aqui.
Lembro tantas belezas, tantos sonhos sonhados juntos, tantas brigas e debates. Noites soturnas, indo de um lado a outro em busca de algo que saciasse nossa sede por respostas.
Almas que viviam ao relento, buscando a si mesmas, costurando, pontilhando pensamentos, respostas, dúvidas. Tantas entradas nas madrugadas embriagadas de questionamentos. Sonhos de um mundo poético-musical aberto e livre dos entraves das bandeiras que ousam cercear nosso caminhar. Encontros furtivos para conspirar sobre os novos passos do mundo.
A todos, sem exceção, brindo pela maravilhosa permissão que me deram de passar por suas vidas, permitindo conhecê-los e aprender com cada um de vocês.
Luzes das estrelas são todos os que me trouxeram experiências, sabedoria, vida intensa aprendida com muito prazer e alguma dor.
Brindo ao que me ensinaram sobre o relacionar-se, sobre a poesia, sobre a música, sobre o vento e sobretudo sobre o amor.
Cada aventura, cada entrada nos esconderijos secretos de cada um, cada porrada levada na cara para afiar o peito.
Meus amigos, todos que por mim passaram, são flores de primavera que desafiaram o inverno rigoroso indo fundo no coração de nosso tempo, vivido em graça, elegância e coragem. Muita coragem.
Brindo a todos, e que dos céus desçam nuvens cada vez mais leves sobre nossos peitos eternamente juvenis que buscam sempre entender as maravilhosas perguntas que sempre nortearam nossas vidas tão emocionantemente vividas.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A dificil arte de meditar

São muitas as pessoas que dizem não conseguir meditar; dizem que não vêem nada; não ouvem nada; não presenciam nada mais senão uma grande confusão, um grande caos no interior; que a mente se torna mais e mais ativa e a ansiedade toma conta da alma. Quando fecham os olhos uma profusão de pensamentos invade o cérebro deixando o corpo inquieto e insatisfeito.

E este é um dos grandes problemas para aqueles que dizem querer aprender a meditar ou que tem necessidade de meditar.

A idéia que fazem da prática da meditação é que ao fechar os olhos da primeira vez, vão entrar em um outro mundo, vão conhecer a si mesmos, torna-se diferentes, mais tranqüilos e mais centrados, que vão entrar no paraíso e relaxar o corpo esgotado das tensões diárias.

E na verdade vão encontrar tudo isso.... E muito mais.

Vão encontrar mais tranqüilidade e paz de espírito. Mas antes vão ter que passar por certas provas que em primeiro lugar é sua própria persistência com relação ao trabalho meditativo que desenvolvem, e em segundo se permitir sentir as novas energias que começam a brotar em sua consciência trazendo compreensão sobre si mesmos, o que deverá facultar, a quem pratica meditação, o direito de desconstruir tudo o que foi construído ao longo dos anos, para nascer uma nova pessoa.

E o que é desconstruir a si mesmo?

Em primeiro lugar é deixar de ter ansiedade sobre a nova prática que realiza deixando as expectativas de lado, e segundo, acreditar que o que está fazendo através da prática da meditação é um trabalho de interiorização, um trabalho alquímico em si mesmo. O mais importante é quebrar com verdades cristalizadas, deixar os julgamentos de lado e apenas observar o que se passa no interior.

E essa é a mais difícil tarefa: deixar de julgar a cerca da experiência antes de vivenciá-la.

É como não formular juízos sobre o novo prato que está a nossa frente somente por causa de sua aparência.

Quando isso acontece, quando nos permitimos vivenciar essa nova experiência livre de pré-julgamentos, quando simplesmente olhamos com olhos frescos essa nova prática que estamos vivenciando, um novo mundo se apresenta, uma nova forma de olhar a vida se apresenta e os olhos passam a ver um mundo de possibilidades.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A lila de deus

Para os Hindus, a vida é feita de uma matéria chamada alegria, chamada de a Lila de Deus. Para eles, tudo brinca no universo. Tudo são sons de alegria e vida. As borboletas que giram no ar brindando à criação universal, os pássaros cantando, as árvores bailando ao vento, as estrelas cintilando, as nuvens esvoaçando e toda criação festejam a vida ao doce som de uma flauta.

E nós seres humanos? Festejamos também a vida? Nós, tidos como o pico da criatividade universal, estamos celebrando a vida?

Sim, festejamos. Nossas festas religiosas, nossas festas sazonais, nossas festas de aniversário, nossas comemorações esportivas, etc, demonstram isso.

No entanto, ainda não aprendemos a festejar, a nos alegrar pelo simples fato de estarmos vivos, apreciando e partilhando este fabuloso espetáculo chamado vida. Ainda não festejamos sem motivo algum aparente este espetáculo. Ainda precisamos de motivos exteriores a nós mesmos para sentirmos a alegria ou felicidade, ainda precisamos alterar nosso estado de consciência nos utilizando de bebidas alcoólicas ou outras drogas para alcançarmos o prazer de viver. Ainda é rude nossa forma de celebrar a vida a ponto dessa celebração muitas vezes se situar bem na fronteira da dor.

A alegria sutil, a alegria meditativa, a alegria que vem de dentro de nós mesmos, aquela que não possui procedência definida, aquela alegria que está em nós e que repentinamente nos toca sem motivo algum, mas pelo simples fato de existir dentro de nós, esta alegria inerente aos pássaros que cantam para festejar a existência ou das flores que simplesmente exalam seu perfume para ninguém em especial, a alegria das nuvens que brincam nos céus ou de um bebe que simplesmente sorri para a vida sem nada pedir em troca; essa alegria inocente que simplesmente brota de nenhum lugar definido é que precisamos deixar florescer dentro de nós espontaneamente como forma de agradecimento pela existência.

A alegria que chega de um estado de consciência meditativa, que parte de dentro para fora, que chega devido ao deslumbramento pelo que existe, esta alegria que existe sem motivo algum ainda precisamos aprender a vivenciar.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Uma oportunidade para mudar

Por paradoxal que seja estamos passando por um momento muito instrutivo neste nosso Brasil. Enquanto são denunciados centenas de casos de corrupção ativa e passiva em todas as esferas da vida política e social do país, a população, pasmada, vai tendo seu aprendizado e vendo o quanto é necessário estar alerta para não se ver roubado por aquilo que se convencionou chamar de “esperteza brasileira”ou “jeitinho brasileiro” tido mesmo como característica de nosso povo.
Já o ex-antropólogo, ex-senador da república e ex-indigenista Darci Ribeiro, nos falava da tendência histórica dos donos do poder no Brasil, em misturar as esferas pública e privada desde os tempos da colonização.
Os Capitães Donatários tinham do país, uma idéia de ser este seu próprio quintal e como eram chefes políticos, também eram os donos da máquina administrativa montada para gerir o país. Disto derivou o “apadrinhamento político”; os aliados que do Estado tudo receberiam em troca da lealdade em todos os sentidos.
Este atavismo se encontra até hoje espalhado por todo o país, mas, sobretudo, no nordeste brasileiro, onde mais se arraigou o chamado coronelismo, prática espúria e peçonhenta, devido ao abandono a que esta região se viu submetida desde quando o açúcar deixou de ser a principal fonte de renda do Estado.
Espalhou-se por todas as camadas sociais esta prática que deforma o caráter desde o guarda de transito até os mais altos cargos da república com a prática do “molha minha mão” que eu faço.
A população vê estupefata a onda corrupta acontecendo neste momento no país e eu rezo para que sinceramente a apatia a que foi lançada desde o golpe militar de 1964 e particularmente os jovens que tiveram na qualidade de sua educação a mais brutal despolitização, estejam realmente absorvendo os ensinamentos e aprendam a se indignar contra esta tão melancólica prática brasileira.
Não há mais possibilidade hoje, de vivermos em um mundo globalizado tendo posturas que correspondam a séculos passados. O mundo mudou, a população cresceu muito, o problema da fome e do meio ambiente se agravaram por mil vezes e não é tendo práticas concernentes a épocas pretéritas que resolveremos as questões que afligem a humanidade dos dias que correm. Ou nós nos transformamos interiormente, mudando o nosso foco de observação da vida, ou as chances de sobrevivência da raça humana será nula. .

terça-feira, 15 de junho de 2010

Amar o lugar onde vivemos como a nós mesmos

É preciso olhar o lugar onde moramos com os olhos do amor; olhar que sai do mais fundo de nosso coração.
Normalmente olhamos o lugar onde vivemos com os olhos da “carteira”, do “bolso”, da economia, das estatísticas, da ambição, daquilo que o lugar possa oferecer e não naquilo que podemos oferecer ao lugar, no que podemos fazer para torná-lo mais bonito e melhor para viver, e isto retira nossa capacidade de enxergar a beleza que reina nesses lugares.
Esta atitude nos afasta da natureza, nos impede de perceber a teia de relações existenciais que nos cerca. Isolamo-nos, alienamo-nos do meio ambiente e vivemos apenas a teia das relações sociais.
Acontece que essa visão é estreita, cativa, porque não percebe que nossa existência enquanto humanidade não se esgota em nós mesmos. Muito pelo contrário, a cada dia aprofundamos nossa dependência dos reinos animal, vegetal e mineral porque a produção das coisas que tanto desejamos enquanto agentes sociais consumidores provem da matéria prima desses reinos. Só que nossa alienação do processo produtivo é de tal monta que não conseguimos enxergar nas coisas que compramos sua origem.
De onde provem tal ou qual objeto? Como foi produzido? O que foi necessário fazer para tal ou qual produto chegar às nossas mãos?
Essas perguntas não ecoam em nossas consciências porque nos acostumamos aos produtos finais. Não nos interessa de onde ou como foi produzido, o que importa é que esteja em mãos. Não importa o que foi preciso fazer para que o produto esteja a minha disposição. Não importa como foi extraída da natureza a matéria prima para fazer o que tenho em mãos, não importa o desgaste ou o sofrimento que causou, o que importa é minha satisfação fugaz.
Não mais construímos nossos brinquedos, não fazemos nossa comida, não construímos nossa casa e nem nossa cidade. Não temos mais vínculos com o processo de criação mas tão somente com o objeto final que logo se transformará em lixo.
O vinculo com as coisas se estabelece quando temos consciência de seu processo de produção. Como ele é feito? Assim também se dá com relação ao amor que podemos ter com as cidades onde moramos. Como ela surgiu? De onde vieram seus fundadores? Qual sua história? São perguntas que criam vínculos, criam respeito e abrem as portas da percepção para ver melhor a maneira como podemos melhorar o espaço da cidade onde habitamos. Olhar com olhos amorosos e profundos o lugar onde vivemos observando a teia de relações que estabelecemos com a vida fora de nós é um processo de desalienação e transformador para com nossa cidade e para conosco mesmo.
Pense nisso!