terça-feira, 28 de setembro de 2010

Aos que sabem envelhecer

Quanta liberdade vamos sentindo a medida que os anos vão se passando. Quanto prazer se sente quando nos permitimos transgredir por sermos mestres de nós mesmos.

A idade e a experiência, a vida bem vivida, trazem a sensação real de paz que se oferece no interior do ser porque nos vai permitindo viver cada dia, cada hora, no aqui, no momento, sem futuro e sem passado. A aceitação do que é, torna-nos maleáveis quanto aos erros e acertos cometidos no cotidiano; divertimos-nos mais com a vida. Vamos deixando de lado os medos que povoam os anos juvenis e avançamos muito mais profundo no desconhecido porque estamos atentos, vendo e passando por eles.

Com o juízo valorativo mais compreendido como fruto de um maravilhoso fluxo cultural, aprendemos mais fácil e mais rápido com os erros e acertos. Desenvolve-se em nós o equilíbrio, o ponto do meio, o olhar mais profundo e amoroso, e, sobretudo, o riso interior.

Deixar de ansiar e estar sempre no novo que a todo o momento acontece é viver a dinâmica do real do mundo, é estar mais irmanado a ele e, portanto, mais interativo com o mundo que acontece no agora. Deixar-se envelhecer é deixar as superficialidades de lado e mergulhar no ser, na inimaginável amplitude do ser.

Quanto mais velho fico, mais liberdade nos olhos vai aparecendo porque as cortinas do medo que antes os cobria vão desaparecendo diante da crescente compreensão dos processos internos de mim. O mundo se torna mais ilusório e mais real ao mesmo tempo porque ao perceber que é passagem é também matéria.

Se com a idade chega a fragilidade do corpo, chega também o fortalecimento do espírito, chega também um maior desabrochar da alma.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A educação nossa de cada dia

A educação é prioridade no Brasil diz o presidente Lula. A educação é prioridade na Bahia, diz o governador Wagner. E todos os outros governos brasileiros dizem em coro: a educação é prioridade no meu governo. Isto independente do partido que está no poder.
E por que os políticos dizem isso quando o que vemos em todo o país é uma educação esfacelada, com professores mal pagos, escolas sem infra-estrutura para funcionar, com falta de verbas, com falta de incentivo à capacitação de professores, com materiais didáticos de baixa qualidade, com salas entupidas de alunos, com professores fazendo greve para ter seus direitos atendidos, etc? Porque hoje, todos sabemos, que a educação é básica para o desenvolvimento de um país como provam os vários Estados Nacionais que investiram maciçamente em educação; porque se sabe que a educação é fundamental para o fomento da cidadania e da construção de um país mais justo e igualitário; porque se sabe que está na educação o futuro da humanidade. E esta verdade está em todas as bocas: desde o homem culto até aquelas pessoas analfabetas que lutam para manter seus filhos na escola porque pensam que só ali os filhos podem vir a ter alguma chance neste competitivo mercado de trabalho. E os políticos sabem disso. E falar em educação como prioridade gera votos, gera mídia, gera possibilidade de estar no poder por mais alguns anos. Quiçá, para sempre.
Há alguns anos atrás, havia poucas escolas no Brasil para muitos jovens que não tinham acesso a ela. Educação era privilégio dos filhos de ricos e poderosos fazendeiros donos do poder político, senhores do poder econômico que sabiam que era necessário ter seus filhos uma formação universitária para poderem continuar mandando no país. E assim era feito. Com o passar dos anos o acesso a educação democratizou-se. Aos pobres, a educação foi permitida, aliás, exigida por um sistema produtivo muito mais evoluído que necessitava de uma mão de obra mais qualificada, precisava de uma mão de obra com requisitos mínimos para poder mover uma fábrica ou necessitava de pessoas que soubessem ler o mínimo para entenderem os manuais de funcionamento das máquinas e até de mecanismos simples de computação e automação.
O sistema produtivo atual não aceita mais o analfabeto. Este fica completamente a margem, cabendo-lhe tão somente serviços domésticos e similares. O sistema precisa de mão-de-obra mais qualificada, alguns inclusive com formação universitária. Foi, portanto, a tecnificação do sistema produtivo que levou o Estado Brasileiro a investir um pouco mais em educação segundo as necessidades de um mercado que precisava de mão-de-obra qualificada que pudesse dar andamento à máquina burocrática, técnica e produtiva do país e... só isso. Infelizmente não houve uma política de Estado voltada para o aperfeiçoamento humano, voltada para a formação de valores humanísticos, voltada para a formação de seres humanos capazes de se inserir com qualidade em um mundo novo que se avizinhava e que vai se delineando cada vez mais como um mundo onde é necessário não apenas a formação técnica-científica, mas também a habilidade para tomar decisões, solucionar problemas, ter autonomia intelectual. O fim último da entrada da grande massa de estudantes que hoje estão em ambiente escolar, foi e continua sendo tão somente sua precária inserção no sistema produtivo.
Não há dúvida que o analfabetismo tem seus dias contados, o novo conceito agora é o do analfabeto funcional, conceito este existente apenas em países de terceiro mundo como o Brasil. Não resta dúvida também, que estamos implementando uma política educacional formadora de mão-de–obra de péssima qualidade e de formação humana nenhuma. Não há no Brasil uma política de Estado voltada para a formação de mão de obra de boa qualidade e de cidadãos aptos para o exercício da democracia. Não há interesse em se formar cidadãos críticos neste país.
As classes dominantes já não são as únicas a irem para as universidades mas são as únicas a fazerem os doutoramentos e pós-doutoramento que é exigência de mercado hoje. E as coisas afinal de contas, continuam muito parecidas, atores mudaram, o cenário mudou, a roupagem mudou, mas em essência, tudo permanece o mesmo. Se antes as massas populares eram analfabetas porque não havia necessidade de alfabetização para o trabalho, hoje, se elas entram nas escolas, é porque o mercado assim o exige, no entanto que lhes seja ensinado apenas o suficiente para lhes retirar do analfabetismo, apenas para que possam mover a máquina pública, a burocracia, e ponto final. Passamos agora a criar o analfabeto funcional. Cidadania, ora isso é coisa para os ricos, para a classe média alta que nem mais se preocupa com o terceiro grau, mas sim com os doutoramentos e os outros pós.
Para a massa da população resta uma educação de última qualidade, resta uma educação entregue as traças, cuja finalidade é apenas retirar o individuo do analfabetismo para que possa servir aos interesses do capital e render muitos, muitos votos para os políticos. E enquanto isto, o país vai a deriva, como um barco a velas, solto na imensidão de um grande oceano.
E as perguntas que deixo são: mudou a visão que as elites brasileiras têm da educação tanto as de ontem quanto as de hoje? Mudou a sua visão de sociedade?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Para Meditar

Como viver sem parar por uns momentos durante o dia para podermos observar a nós mesmos?
Como viver sem sentir o coração pulsando, o movimento dos braços, das pernas; sem sentir o próprio ser que caminha pelo dia?
Como viver sem olhar para onde estamos indo? Para o que estamos fazendo? Sem reverenciar a nos mesmos e aos outros pelos desafios cotidianos que enfrentamos?
Como viver sem olhar para dentro a permitir que o vazio cresça dentro de nós e a presença do que é divino se faça sentir?
Como é possível viver apenas para o lado de fora sem buscarmos o necessário equilíbrio que é encontrado somente quando usamos nossa sensibilidade, nossa interioridade?
É no silêncio interior, que cresce quando paramos de correr e fechamos nossos olhos, que percebemos a grandeza das coisas, a sutil música da existência, a paz e a felicidade que tanto almejamos.
É no silenciar da mente que nos deparamos com a beleza das coisas que nos rodeiam porque, somente assim, temos a experiência direta do sentir sem as muralhas julgadoras do pensamento.
É no silenciar da mente que conseguimos compreender nossa própria existência, nossa razão de ser, nosso delírio, nosso propósito, a divindade que também reside em nós; a música celestial que recobre nosso planeta e a nós mesmos.
Sem silenciarmos a mente, mesmos que por uns poucos momentos, é impossível sentirmos o perdão, a sabedoria, a vocação inerente a todos os seres humanos para o amor.
Silenciar a mente, portanto, não é um luxo, uma atitude de elite, uma ociosidade ou um momento de devaneio, é uma necessidade do espírito que precisa ser ouvido em sua tão infinita beleza e sabedoria. Uma jóia que nos dá força, coragem, energia, discernimento e amor para o profundo ato que é viver.

Queimadas

Mais um Setembro se inicia
E mais uma vez se inicia também
A queima de minhas matas.

Por que me tratam assim?
Por que me despem de minhas verdes vestes de forma tão brutal?
Acaso ando eu a tratar tão mal meus filhos diletos?
Acaso lhes deixo sem água para matar vossa sede
Ou alimento para saciar vossa fome?

Vocês humanos são meus filhos diletos

A vocês dei não somente vida como aos outros animais
Mas também inteligência para melhor me conhecer
E extraírem tesouros que possuo escondidos
Em locais que só com sua inteligência podem ser alcançados

A vocês dei abundância de água, de terra e ar
E no entanto, vós, com suas mesquinhas iras, suas intestinas lutas
De seres humanos imaturos, tocam fogo em minhas verdes camadas
Que ressecam minha pele, matam animais, destroem rios, acabam
Com a diversidade da vida e poluem o ar

O que querem vocês?

Alguém, alhures, já disse que fazer mal a terra
É fazer mal aos filhos da terra
E todos vocês são meus filhos
Vieram de minhas entranhas e para lá hão de voltar.

Por que maltratam a mim e a seus irmãos irracionais?
Acaso não me reconheceis como sua mãe?
Acaso não reconheceis os outros animais como vossos irmãos?
Quando os gerei com sua inteligência
Pensei no melhor
Pensei no mais belo de minha criação
Pensei no apogeu de minha criatividade
Mas não pensei que esta poderia ser também
A minha própria destruição e de todos os filhos outros que gerei

Sei que tentei o belo, sei que tentei o bom
No entanto, não foi o suficiente
Não foi o bastante lhes dar a inteligência
Era preciso sobretudo lhes dar a sabedoria e o amor
Que ficou escondido em algum lugar
Guardado no fundo de seu imaturo peito

E por isto, vendo hoje os Setembros chegarem, vendo os Outubros e
Os outros meses quentes chegarem, olho para meus outros tantos
Filhos mortos e feridos por seu insano ato
De queimar minhas verdes coberturas, e lhes peço perdão

Às vezes por ter criado vocês humanos,
Às vezes por ter esquecido de lhes colocar
Um pouco mais de amor no coração

Sei que foi por pouco, sei que foi por um triz
O amor apenas não ficou a vista de vocês
Pensei que com a grande inteligência que lhes provi
Vocês o encontrassem

Mas como dói meu erro

E agora sou obrigada a dizer:

Filhos, como mãe, como terra,
Como senhora de toda a criação deste planeta
Se quiserdes continuar a existir cá em mim,
Pensem no que estão a fazer
Reflitam sobre a destruição que provocais e usem um pouco mais
Aquilo que de bom coração deixei a vocês:

A inteligência.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eu não sou o único

Eu não sou o único que busca plantar flores por onde passa!
Eu não sou o único que busca na alegria, na celebração e no amor, uma nova forma de partilhar a existência!
E eu não sou o único que percebe o planeta terra como um todo orgânico, integrado, como uma entidade viva que pulsa junto com tudo que existe nele!

Não, são milhões de pessoas que assim pensam, cada um com seu jeito, com seu sistema de crenças, melhorar a vida e lutar por um planeta mais irmão.

Enganam-se aqueles que se sentem saudosos dos tempos idos, como se tivesse havido na terra um tempo onde as pessoas vivessem na mais plena harmonia. Não! A história nos ensina que a terra sempre foi palco das mais sangrentas lutas de homens contra homens.

A natureza sempre nos impôs uma luta árdua pela sobrevivência e esta implicava na visão de milhares de gerações anteriores, na dominação de etnias sobre etnias, de homens sobre homens.

O que se pode dizer é que nossa historia foi uma história com alguns momentos de paz. Sobretudo no século XX.

No entanto, este famigerado século que foi palco de dois dos mais tenebrosos momentos de nossa história, a I e II guerra mundial, abriu-nos também grandes possibilidades: o horror da guerra gerou uma mentalidade de paz, gerou uma ciência universalista e aproximou nossa percepção daquilo que é divino em nós.

Neste século, aprendemos a superar enormes tensões que poderiam ter nos conduzido a uma catástrofe final; geramos uma quantidade de alimentos impossível de pensar sem a ajuda da tecnologia e da ciência juntas e aprimoramos nossa relação com a terra e com os seus outros habitantes com a formulação de propostas de economia solidária, ecovilages, sustentabilidade, etc...

O ser humano tornou-se mais místico e o auto-conhecimento, última grande fronteira do conhecimento, é buscado cada vez mais através de práticas de meditação, yoga e outras vertentes que buscam o conhecimento de si.

A paz enfim, tornou-se uma possibilidade real. O mundo unificou-se e a multiculturalidade passou a ser fonte de enriquecimento material e imaterial para os diversos povos espalhados pelo nosso planeta e não mais motivo de guerra.

É claro que muitos, ainda assentados em posturas atávicas; aqueles que não percebem a nova ordem mundial que se instalou exigindo uma nova postura frente a vida, insistem em manter-se rígidos e infelizes, infelicitando a vida de tantos outros. É claro que muitos ainda não perceberam que o novo paradigma é o da solidariedade, da sociabilidade, da comunidade.

Mas como disse anteriormente, é no hoje que reside a possibilidade de paz real e de transformação interior e milhões já se aperceberam disso e milhões são os que por onde passam plantam flores e alegrias.
E você? Está plantando flores e dançando alegrias por onde passa?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O buscador

Porque o buscador pode dançar e pode voar.
Porque ele é espaço, terra e ar.
Porque está muito além da mente, muito além das análises das conjecturas e das estruturas.
Porque é Deus e está em todas as coisas e todas as coisas estão contidas nele.

Portanto, não tentes compreender o buscador com tua mente mundana, mas tente senti-lo com o teu coração puro.

Tua razão é material e somente coisas materiais a ela é cabível compreender.

Como podes compreender ao buscador que é energia, universo, éter, inacessível à tua razão material?

Como poder querer que o buscador haja segundo os padrões de tua estreita conduta e visão, se onde ele habita não existem padrões de comportamento, mas apenas consciência e dança?

Como podes compreender a ele que nunca morre e está para muito além dos limites de tua finita vida?

Somente quando vires o buscador no esplendor de seu próprio sol é que compreenderás o que digo; somente então perceberás o estranho que é a tua pequena razão humana querer a ele compreender: o próprio sol.

E tu, apenas quando chegares ao buscador poderás compreender, porque aí, já não serás tu, mas também o sol, também a terra, também raízes, também o próprio buscador. Serás ele e assim compreenderás a ti mesmo porque serás Deus e uno com o universo e toda a grandeza da criação.

sábado, 14 de agosto de 2010

Página em Branco

Quando olho para uma folha em branco, penso logo em como preenchê-la. O que escrever nela? Como mostrá-la a outros revestida com nova roupagem, com um dado significado?

Olho para a página e sinto que ela tem uma mensagem interna, que já nasce predisposta a certo tipo de texto. Pode ser um texto afetivo ou científico, um texto pedagógico ou literário, um poema ou uma carta. Uma crônica ou um conto. Talvez um romance ou quem sabe a letra de uma melodia ou até mesmo uma receita fundamental abridora de tantos apetites.

Uma página em branco desperta em mim ação a realizar, é preciso dar-lhe sentido, significado histórico, fazê-la cumprir seu desconhecido destino. Abrir-lhe o o coração, despertá-la para o mundo.

O fato é que definitivamente a folha em branco não nasceu para ser rasgada ou jogada no lixo. Não nasceu imprestável para o ato de cobri-la de letras com tantas mensagens que poderia ter.

Não!

Ela tem uma missão, precisa ter um significado social, dar sua mensagem, por menor que seja, ser luz para tantos, pois os textos nela gravados podem iluminar uma consciência ou talvez um sorriso para um rosto pálido.

Uma página em branco é como uma criança sobre a qual os adultos gravam em sua memória experiências que as marcarão para o resto de suas vidas.

Como nas páginas em branco, gravemos então na memória de nossas crianças experiências positivas, experiências que lhes digam que verdadeiramente vale a pena viver este mundo. Experiências que as preencham de luz e beleza. Essa é uma das tantas ações possíveis que irá deixar o mundo cada vez melhor.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nossos amigos

Ah se pudesse agora erguer uma taça de vinho da melhor qualidade para brindar com todos os amigos que estiveram próximos a mim. Brindaria a todos eles pelo que me fizeram viver até aqui.
Lembro tantas belezas, tantos sonhos sonhados juntos, tantas brigas e debates. Noites soturnas, indo de um lado a outro em busca de algo que saciasse nossa sede por respostas.
Almas que viviam ao relento, buscando a si mesmas, costurando, pontilhando pensamentos, respostas, dúvidas. Tantas entradas nas madrugadas embriagadas de questionamentos. Sonhos de um mundo poético-musical aberto e livre dos entraves das bandeiras que ousam cercear nosso caminhar. Encontros furtivos para conspirar sobre os novos passos do mundo.
A todos, sem exceção, brindo pela maravilhosa permissão que me deram de passar por suas vidas, permitindo conhecê-los e aprender com cada um de vocês.
Luzes das estrelas são todos os que me trouxeram experiências, sabedoria, vida intensa aprendida com muito prazer e alguma dor.
Brindo ao que me ensinaram sobre o relacionar-se, sobre a poesia, sobre a música, sobre o vento e sobretudo sobre o amor.
Cada aventura, cada entrada nos esconderijos secretos de cada um, cada porrada levada na cara para afiar o peito.
Meus amigos, todos que por mim passaram, são flores de primavera que desafiaram o inverno rigoroso indo fundo no coração de nosso tempo, vivido em graça, elegância e coragem. Muita coragem.
Brindo a todos, e que dos céus desçam nuvens cada vez mais leves sobre nossos peitos eternamente juvenis que buscam sempre entender as maravilhosas perguntas que sempre nortearam nossas vidas tão emocionantemente vividas.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A dificil arte de meditar

São muitas as pessoas que dizem não conseguir meditar; dizem que não vêem nada; não ouvem nada; não presenciam nada mais senão uma grande confusão, um grande caos no interior; que a mente se torna mais e mais ativa e a ansiedade toma conta da alma. Quando fecham os olhos uma profusão de pensamentos invade o cérebro deixando o corpo inquieto e insatisfeito.

E este é um dos grandes problemas para aqueles que dizem querer aprender a meditar ou que tem necessidade de meditar.

A idéia que fazem da prática da meditação é que ao fechar os olhos da primeira vez, vão entrar em um outro mundo, vão conhecer a si mesmos, torna-se diferentes, mais tranqüilos e mais centrados, que vão entrar no paraíso e relaxar o corpo esgotado das tensões diárias.

E na verdade vão encontrar tudo isso.... E muito mais.

Vão encontrar mais tranqüilidade e paz de espírito. Mas antes vão ter que passar por certas provas que em primeiro lugar é sua própria persistência com relação ao trabalho meditativo que desenvolvem, e em segundo se permitir sentir as novas energias que começam a brotar em sua consciência trazendo compreensão sobre si mesmos, o que deverá facultar, a quem pratica meditação, o direito de desconstruir tudo o que foi construído ao longo dos anos, para nascer uma nova pessoa.

E o que é desconstruir a si mesmo?

Em primeiro lugar é deixar de ter ansiedade sobre a nova prática que realiza deixando as expectativas de lado, e segundo, acreditar que o que está fazendo através da prática da meditação é um trabalho de interiorização, um trabalho alquímico em si mesmo. O mais importante é quebrar com verdades cristalizadas, deixar os julgamentos de lado e apenas observar o que se passa no interior.

E essa é a mais difícil tarefa: deixar de julgar a cerca da experiência antes de vivenciá-la.

É como não formular juízos sobre o novo prato que está a nossa frente somente por causa de sua aparência.

Quando isso acontece, quando nos permitimos vivenciar essa nova experiência livre de pré-julgamentos, quando simplesmente olhamos com olhos frescos essa nova prática que estamos vivenciando, um novo mundo se apresenta, uma nova forma de olhar a vida se apresenta e os olhos passam a ver um mundo de possibilidades.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A lila de deus

Para os Hindus, a vida é feita de uma matéria chamada alegria, chamada de a Lila de Deus. Para eles, tudo brinca no universo. Tudo são sons de alegria e vida. As borboletas que giram no ar brindando à criação universal, os pássaros cantando, as árvores bailando ao vento, as estrelas cintilando, as nuvens esvoaçando e toda criação festejam a vida ao doce som de uma flauta.

E nós seres humanos? Festejamos também a vida? Nós, tidos como o pico da criatividade universal, estamos celebrando a vida?

Sim, festejamos. Nossas festas religiosas, nossas festas sazonais, nossas festas de aniversário, nossas comemorações esportivas, etc, demonstram isso.

No entanto, ainda não aprendemos a festejar, a nos alegrar pelo simples fato de estarmos vivos, apreciando e partilhando este fabuloso espetáculo chamado vida. Ainda não festejamos sem motivo algum aparente este espetáculo. Ainda precisamos de motivos exteriores a nós mesmos para sentirmos a alegria ou felicidade, ainda precisamos alterar nosso estado de consciência nos utilizando de bebidas alcoólicas ou outras drogas para alcançarmos o prazer de viver. Ainda é rude nossa forma de celebrar a vida a ponto dessa celebração muitas vezes se situar bem na fronteira da dor.

A alegria sutil, a alegria meditativa, a alegria que vem de dentro de nós mesmos, aquela que não possui procedência definida, aquela alegria que está em nós e que repentinamente nos toca sem motivo algum, mas pelo simples fato de existir dentro de nós, esta alegria inerente aos pássaros que cantam para festejar a existência ou das flores que simplesmente exalam seu perfume para ninguém em especial, a alegria das nuvens que brincam nos céus ou de um bebe que simplesmente sorri para a vida sem nada pedir em troca; essa alegria inocente que simplesmente brota de nenhum lugar definido é que precisamos deixar florescer dentro de nós espontaneamente como forma de agradecimento pela existência.

A alegria que chega de um estado de consciência meditativa, que parte de dentro para fora, que chega devido ao deslumbramento pelo que existe, esta alegria que existe sem motivo algum ainda precisamos aprender a vivenciar.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Uma oportunidade para mudar

Por paradoxal que seja estamos passando por um momento muito instrutivo neste nosso Brasil. Enquanto são denunciados centenas de casos de corrupção ativa e passiva em todas as esferas da vida política e social do país, a população, pasmada, vai tendo seu aprendizado e vendo o quanto é necessário estar alerta para não se ver roubado por aquilo que se convencionou chamar de “esperteza brasileira”ou “jeitinho brasileiro” tido mesmo como característica de nosso povo.
Já o ex-antropólogo, ex-senador da república e ex-indigenista Darci Ribeiro, nos falava da tendência histórica dos donos do poder no Brasil, em misturar as esferas pública e privada desde os tempos da colonização.
Os Capitães Donatários tinham do país, uma idéia de ser este seu próprio quintal e como eram chefes políticos, também eram os donos da máquina administrativa montada para gerir o país. Disto derivou o “apadrinhamento político”; os aliados que do Estado tudo receberiam em troca da lealdade em todos os sentidos.
Este atavismo se encontra até hoje espalhado por todo o país, mas, sobretudo, no nordeste brasileiro, onde mais se arraigou o chamado coronelismo, prática espúria e peçonhenta, devido ao abandono a que esta região se viu submetida desde quando o açúcar deixou de ser a principal fonte de renda do Estado.
Espalhou-se por todas as camadas sociais esta prática que deforma o caráter desde o guarda de transito até os mais altos cargos da república com a prática do “molha minha mão” que eu faço.
A população vê estupefata a onda corrupta acontecendo neste momento no país e eu rezo para que sinceramente a apatia a que foi lançada desde o golpe militar de 1964 e particularmente os jovens que tiveram na qualidade de sua educação a mais brutal despolitização, estejam realmente absorvendo os ensinamentos e aprendam a se indignar contra esta tão melancólica prática brasileira.
Não há mais possibilidade hoje, de vivermos em um mundo globalizado tendo posturas que correspondam a séculos passados. O mundo mudou, a população cresceu muito, o problema da fome e do meio ambiente se agravaram por mil vezes e não é tendo práticas concernentes a épocas pretéritas que resolveremos as questões que afligem a humanidade dos dias que correm. Ou nós nos transformamos interiormente, mudando o nosso foco de observação da vida, ou as chances de sobrevivência da raça humana será nula. .

terça-feira, 15 de junho de 2010

Amar o lugar onde vivemos como a nós mesmos

É preciso olhar o lugar onde moramos com os olhos do amor; olhar que sai do mais fundo de nosso coração.
Normalmente olhamos o lugar onde vivemos com os olhos da “carteira”, do “bolso”, da economia, das estatísticas, da ambição, daquilo que o lugar possa oferecer e não naquilo que podemos oferecer ao lugar, no que podemos fazer para torná-lo mais bonito e melhor para viver, e isto retira nossa capacidade de enxergar a beleza que reina nesses lugares.
Esta atitude nos afasta da natureza, nos impede de perceber a teia de relações existenciais que nos cerca. Isolamo-nos, alienamo-nos do meio ambiente e vivemos apenas a teia das relações sociais.
Acontece que essa visão é estreita, cativa, porque não percebe que nossa existência enquanto humanidade não se esgota em nós mesmos. Muito pelo contrário, a cada dia aprofundamos nossa dependência dos reinos animal, vegetal e mineral porque a produção das coisas que tanto desejamos enquanto agentes sociais consumidores provem da matéria prima desses reinos. Só que nossa alienação do processo produtivo é de tal monta que não conseguimos enxergar nas coisas que compramos sua origem.
De onde provem tal ou qual objeto? Como foi produzido? O que foi necessário fazer para tal ou qual produto chegar às nossas mãos?
Essas perguntas não ecoam em nossas consciências porque nos acostumamos aos produtos finais. Não nos interessa de onde ou como foi produzido, o que importa é que esteja em mãos. Não importa o que foi preciso fazer para que o produto esteja a minha disposição. Não importa como foi extraída da natureza a matéria prima para fazer o que tenho em mãos, não importa o desgaste ou o sofrimento que causou, o que importa é minha satisfação fugaz.
Não mais construímos nossos brinquedos, não fazemos nossa comida, não construímos nossa casa e nem nossa cidade. Não temos mais vínculos com o processo de criação mas tão somente com o objeto final que logo se transformará em lixo.
O vinculo com as coisas se estabelece quando temos consciência de seu processo de produção. Como ele é feito? Assim também se dá com relação ao amor que podemos ter com as cidades onde moramos. Como ela surgiu? De onde vieram seus fundadores? Qual sua história? São perguntas que criam vínculos, criam respeito e abrem as portas da percepção para ver melhor a maneira como podemos melhorar o espaço da cidade onde habitamos. Olhar com olhos amorosos e profundos o lugar onde vivemos observando a teia de relações que estabelecemos com a vida fora de nós é um processo de desalienação e transformador para com nossa cidade e para conosco mesmo.
Pense nisso!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Fragmento do livro "A Iniciação Diário de uma Viagem à Índia" de Dhyan Firdauz

“...Havia quatro covas e em uma delas se depositou madeira seca, sobre a qual colocaram o estrado com o corpo, cobrindo-o em seguida com mais lenha seca de maneira que ficou totalmente coberto. Um combustível foi derramado e um palito de fósforo foi riscado e lançado sobre a madeira. O fogo foi aceso. Nesse momento se fez um grande silêncio. Uma imensa chama subiu e o fogo passou a arder devorando aquela madeira e consumindo aquele corpo. O cheiro quase imperceptível de carne sendo cremada era levado pelo vento em direção ao rio, enquanto familiares, amigos e centenas de sannyasins recomeçavam a cantar e dançar ao som daquele ritmo frenético tocado pelos músicos, festejando a passagem do ente querido para um novo estágio da vida, talvez mais próximo de Deus.
O cansaço foi tomando conta de todos e lentamente começaram a se retirar seguindo cada qual a sua direção, até que por fim a música cessou por completo e todos se foram. Eram por volta das 17h30min daquela estranha tarde quando também me retirei do local indo em direção ao meu quarto. O fogo ainda consumia toda aquela lenha e o corpo da sannyasin. Fagulhas subiam em direção ao céu e pássaros sobrevoavam o rio. A praça agora estava deserta e nada mais restava a não ser uma fogueira consumida para bem mais da metade.
No caminho para meu quarto fui pensando na beleza daquele ritual de despedida feito por aquele povo; fui pensando na brevidade da vida aqui na terra e na imortalidade da alma. O mundo ocidental valoriza enormemente o que é perecível e superficial e esquece-se do que é permanente e essencial.
No dia seguinte pela manhã voltei ao local e cinzas ainda quentes denunciavam a cremação do corpo do dia anterior.”

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Nós, vendedores

Existem no mundo, vendedores de produtos de toda ordem. Por exemplo, existem os vendedores de cosméticos ou os vendedores de armas, o vendedor de roupas ou o de sapatos; existem os vendedores de sonhos ou ilusões lançadas a esmo no ar. Existem os vendedores de drogas de toda ordem, cigarros, café, ou açúcar; cocaína, maconha ou álcool. Existem até os vendedores de luares nos encantadores saraus.

Existem os vendedores de angústia que pregam as vaidades impossíveis ou os amores eternos. Existem os que vendem os tons e os dons de nossa época tão rápida que logo dão passagem para outros que passam muito rápido também. Existem os vendedores de alma que a entregam por qualquer ninharia oferecida na vã esperança de conseguir felicidade. Existem os vendedores de tudo porque tudo é passível de compra, de venda ou de troca.

O fato é que corre no sangue da humanidade a compra e a venda, a troca, porque é do gênero humano o relacionar-se.

Eu, no entanto, me coloco como um vendedor de felicidade. A felicidade de estar aqui, de ser daqui, e de poder, vez ou outra, desprender-me de mim mesmo e voar por ares nunca dantes navegados; felicidade de me saber eterno a me buscar, experimentar ser humano.

Coloco-me como vendedor de felicidade por poder fechar os olhos e tocar na luz que fica lá nas camadas mais profundas de mim mesmo e rejuvenescer; por poder ir e voltar a qualquer lugar porque lá ficou uma paixão, ficou uma dúvida e, sobretudo, porque nasceram perguntas. Sou vendedor de felicidade porque a reconheço vivendo de mãos dadas com meu coração. Reconheço-a aqui e agora e sei das várias faces que possuem e sei também que todas são felicidade. Vendo a possibilidade de simplesmente sentar, fechar os olhos e nada fazer a não ser sentir o puro deleite que é o de me saber gente que sou.

domingo, 30 de maio de 2010

INTERIORIDADE

Normalmente temos medo de estar sozinhos, em silêncio, contemplando nossa interioridade. O que há lá dentro? Qual a extensão dessa interioridade, desse vazio?
Temos medo de descobrir o fabuloso mundo onde o prazer reside em se contemplar o vazio, em se deleitar com a própria essência do ser.
Vivemos como se existíssemos apenas para o mundo do trabalho, para o mundo social, esforçando-nos para aparecer melhor diante do outro. Estamos 24 horas nos relacionando com o outro - inclusive nos sonhos - direcionando nossa energia para a mente a fim de resolvermos os milhares de problemas que nos mesmos criamos.
“Nunca tenha um gato”, disse o mestre ao seu discípulo em seu leito de morte.
Uma pessoa que não possui centramento faz daquilo que possui, mesmo que seja um simples gato, não um prazer, mas um problema para poder manter a mente continuamente ocupada.
Preocupação é uma característica do ser humano moderno. Fazer; estar ocupado; não ter tempo; são palavras-chave para quem quer entender o ser humano moderno. E todos os que se recusam a acompanhar o ritmo frenético deste mundo são chamados de preguiçosos. Não ter tempo para si, não parar um pouquinho para dirigir-se para dentro é um estado muito apreciado hoje e significa estar muito bem; bem de acordo com o padrão ditado pelo conceito de bem-estar moderno. Assim mostra-se que se é uma pessoa muito requisitada.
O que existe por traz do ser humano social? O que acontece quando o sentar silencioso transforma-se em meditação? Um mundo novo se abre, o futuro deixa de preocupar e o passado deixa de existir e as questões do hoje, do agora, são o nosso único foco de atenção.
Temos medo do futuro. Temos medo do que virá. Exatamente igual ao ser humano primitivo que tinha medo das forças da natureza. Não temos confiança naquilo que desenvolvemos hoje, ainda não compreendemos que o futuro é fruto de nossa ação agora. O medo do futuro nos atormenta e isso afeta nossas relações sociais, afinal, o outro é meu concorrente e eu preciso estar sempre um passo a sua frente.
Dentro de uma roupa elegante, debaixo de um chapéu bonito, atrás de um óculos escuro e moderno pode existir um ser humano completamente desconhecido de si mesmo, um ser humano que nunca se tocou com profundidade, um ser humano que nunca ouviu seu próprio coração e nunca se permitiu admirar a própria desconhecida presença. O ser humano “irreal” precisa tocar a própria realidade e chorar de alegria por isso. .

sábado, 15 de maio de 2010

Mente e meditação

Largar hábitos enraizados, costumes encarnados já a décadas ou mesmo há gerações, por pior que sejam, exige um esforço grande, uma vontade férrea.

É fácil criticar, diz o ditado popular, difícil é se autocriticar, ver a si mesmo avaliar-se na prática diária com o intuito de mudar para melhor.

O simples ato de chegar a um compromisso no horário marcado é difícil para muitas pessoas. Efetivar compromissos até consigo mesmo, como deixar de comer uma barra de chocolate ou batatas fritas é tarefa árdua para alguns. O que dizer então, por exemplo, de querer levar vantagem em tudo que faz; em mentir constantemente; em comer mais que o necessário; em ter mais que o suficiente; em roubar o dinheiro público que está ali em sua frente; etc?

É difícil ser honesto consigo mesmo quando existe todo um contexto global formando mentes dentro de padrões tão mesquinhos e desonestos.

Somos ensinados a pensar que este fenômeno social chamado mente é nossa essência, que nos somos aquilo que pensamos, e isso não é verdade. Nós somos muito mais do que nossas mentes.

No trabalho meditativo, aprendemos que a mente é formada dentro de um contexto social específico e que nossa essência está muito mais além e não necessita de mentiras, de desonestidades, de falsidades.

Aprendemos que temos um cérebro e este cérebro desenvolve uma mente que é um conjunto valores, de pensamentos, de padrões comportamentais segundo o contexto em que nasce o sujeito; ou seja, enquanto o cérebro é um órgão que tem origem no desenvolvimento biológico humano, a mente é produto cultural.

Todos nós somos portadores de um cérebro com as mesmas possibilidades, mas cada cérebro desenvolve uma mente que funciona segundo padrões ditados pelos costumes, pelas normas etc, e com a qual nos identificamos de tal forma que pensamos ser estes padrões e agimos de acordo a esses padrões. Ou seja, a liberdade que tanto acreditamos possuir e é símbolo da chamada democracia ocidental, não passa de um grande engodo já que nossa ação é resultante de uma mente que existe premida entre os costumes e a moral vigente.

No trabalho meditativo, aprendemos que estar em meditação é estar além do ontem e do amanhã, é estar no momento presente, pronto para uma ação efetivamente consciente, sem manipulações de uma mente carregada de memórias que em nada nos ajudam a viver o hoje.
Firdauz

quinta-feira, 13 de maio de 2010

TEXTO EXTRAÍDO DO LIVRO DE FIRDAUZ:ELIAS EM A FÁBULA DO CASTELO

-"0 homem vive no mundo da dúvida, no mun¬do do meio. Ele não é nem animal nem santo, não está nem aqui na terra, nem lá no céu. Vive perdido entre os mundos do espírito e da matéria e por isto não consegue ter paz e ser feliz. E somente aqueles que ultrapassaram esta dúvida é que alcançam a paz. Mas comumente, quando alguns encontram a resposta, os outros homens não suportando a descoberta o matam e o exilam de seu meio ou os chamam de santos ou loucos e criam uma lenda sobre eles". Elias o interrompeu mais uma vez e per¬guntou:
-Mas por que eles fazem isto se você mesmo disse que a busca da verdade é parte principal de sua própria história de vida?"
E o vento respondeu:
- É porque eles usam o horrível véu negro da ignorância por sobre a cabeça, que lhes encobre a visão e os impede o advento da sabedoria. Aque¬les que ousam retirar este véu tornam-se uma ame¬aça porque mostram que é possível retirar o véu e viver com sabedoria. Infelizmente, o ser humano ha¬bituou-se a viver na miséria da ignorância".
Naquele dia Elias deixou-se ficar muito pensati¬vo depois do vento partir. Ainda o vi por muitas ho¬ras sob o velho carvalho a refletir sobre as palavras do vento. Depois adormeceu e sonhou ser um ca¬ranguejo. Um caranguejo que numa noite de luar saiu de sua casa na lama para reverenciar a dama da noite, quando duas mãos fortes o agarraram. Ele lutou, abriu suas garras, as quais considerava muito fortes, para ferir o inimigo, mas este o imobilizou e o jogou em um paneiro feito de vime, cheio de outros caranguejos. Sentiu-se preso e acordou lutando para se desvencilhar daquela prisão. Foi a primeira sensação de medo que teve.

sábado, 8 de maio de 2010

Por que poesia em tempos de indigência?

Nos dicionários encontramos a palavra indigência significando pobreza, carência, falta do mínimo necessário à sobrevivência, sempre numa referência a não satisfação das necessidades básicas do corpo. No entanto, a pergunta acima, me leva a uma reflexão que vai além destas afirmativas dicionárias. A indigência de que o homem padece hoje e talvez sempre tenha padecido é também de cunho emocional/espiritual, é indigência de si mesmo, de carinho e de compaixão para consigo mesmo. É a indigência dos tempos míticos desde nossa expulsão do paraíso.
Em minha visão, no entanto, nós nunca estivemos tão próximos como agora, de uma mudança mais radical do que a que se avizinha, como uma possível volta ao reino paradisíaco perdido.
Sabemos que, tecnicamente, a fome não é mais compatível com o mundo contemporâneo e que a produção de alimentos mundial é mais que suficiente para matar a fome de todos os habitantes de nosso planeta. Então, por que ainda existir este flagelo que mata milhões de pessoas? Por que nós, agora imbuídos de conhecimentos científicos, não resolvemos muitos dos problemas com soluções óbvias, que afligem a humanidade como um todo, inclusive pondo em perigo a própria sobrevivência do planeta?
A resposta é clara. Ela está na necessidade urgente de uma mudança comportamental do ser humano. Uma mudança nos nossos valores, nos nossos hábitos, na nossa capacidade de “enxergar” o mundo como uma entidade viva da qual fazemos parte apenas como uma teia de infinitas relações de interdependência e que ao quebrarmos esta teia, afetamos todo este equilíbrio vivo. Ou seja, estamos agindo de forma tal que desequilibramos a rede da vida pondo em perigo toda a terra.
Uma mudança de valores portanto se faz necessário. Uma mudança espiritual se faz urgente.
E aí entra a importância da poesia nestes tempos de indigência pelos quais passamos, porque é palavra transformada em emoção, em experiência existencial/estética. Uma frase bem escrita, uma reflexão transparente e aberta nos ajuda a compreender o mundo e a nós mesmos a partir de nossa própria vivência. Olhar o mundo com emoção, emocionar-se com um pôr-do-sol ou um nascer-do-sol, com um olhar de uma criança, com o desabrochar de uma rosa é poesia. Perceber a vida como uma cadeia de aconteceres e imaginar-se nesta cadeia, como parte integrante da dança do universo é poesia também. Olhar para o interior de nós mesmos e percebermos a mágica composição de nossa constituição é a poesia da vida. Poder olhar a vida e estaziar-se com sua elegância e beleza é impossibilitar-nos agir contrariamente as leis naturais e mudarmos nossos comportamentos agressivos, anti-sociais e antiéticos. Olhar a vida, portanto, como o poeta olha a palavra, é condição fundamental para que transformemos este planeta num lugar mais habitável, mais humano e mais bonito de se viver. A poesia na verdade, é a nossa essência, é o que unifica todos os povos, nosso bem comum.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Medicina se rende a prática da meditação

Ministério da Saúde baixou portaria incentivando postos de saúde e hospitais a oferecer a técnica em todo o País
“A agência do governo dos EUA responsável pelas pesquisas médicas (NIH, na sigla em inglês) reconheceu formalmente a meditação como prática terapêutica que pode ser associada à medicina convencional. O Ministério da Saúde brasileiro baixou uma portaria em que incentiva postos de saúde e hospitais públicos a oferecer a meditação em todo o País.
Essas ações governamentais são sinais da tendência de encarar a meditação não simplesmente como prática de bem-estar, que faz bem apenas à mente e ao espírito. Parar diariamente alguns minutos para se concentrar e se desligar do turbilhão de pensamentos que ocupam constantemente a cabeça também ajuda a manter a saúde física.
“A meditação é diferente da medicina convencional porque quem cuida de você não é o médico. É você mesmo", explica a médica anestesista Kátia Silva, que coordena as atividades de meditação no Hospital Municipal Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo. Na cidade, 70% dos postos de saúde oferecem atividades da chamada medicina tradicional, que inclui acupuntura, tai chi chuan e meditação.
Relativamente recentes, as pesquisas começaram nos anos 70. Uma pesquisa com a palavra meditação no acervo online da Biblioteca Nacional de Medicina, do governo americano, traz 1.400 estudos científicos.
Entre outros benefícios, meditar previne e combate a depressão, a hipertensão arterial, a dor crônica, a insônia, a ansiedade e os sintomas da síndrome pré-menstrual, além de ajudar a reduzir a dependência de drogas.
Esses estudos mostram que a meditação reduz o metabolismo - os batimentos cardíacos e a respiração ficam mais lentos e o consumo de oxigênio pelas células cai. É isso que dá a sensação de relaxamento e tranqüilidade.
As mesmas pesquisas sugerem que prática também interfere no funcionamento do sistema nervoso autônomo, que é responsável, por exemplo, pela liberação dos hormônios noradrenalina e cortisol durante os momentos de stress. Em quem medita, a duração dessas "reações de alarme" são mais curtas. Dessa forma, a pressão do sangue e a força de contração do coração ficam alteradas por pouco tempo, comprometendo menos a saúde..”

É cada vez mais comum ler textos com teor semelhante. Embora a matéria acima peque no que diz respeito ao conhecimento acerca do que é meditação ( grifei a palavra concentração para lembrar que concentrar não é meditar, como erra ao dizer, o autor do texto), nos mostra o quanto hoje a prática da meditação se dissemina no mundo.
Quando se estabelece essa prática cotidianamente, nossa vida se altera, a percepção atinge índices mais elevados e a qualidade de nossas vidas melhora. E não há nenhuma mágica nisso. O que ocorre é que ao nos tornarmos mais conscientes, ao nos percebermos mais, ao atentarmos mais para nós mesmos, e essa é uma meta da meditação, naturalmente passamos a maravilhar-nos com os vários aconteceres de nossa vida, mesmo com os mais simples fatos como acordar ou escovar os dentes. Passamos a ser observadores conscientes das tarefas que executamos cotidianamente e vamos vendo o quanto elas são positivas ou negativas para nós.
A prática da meditação nos conduz a presença constante de nós mesmos. Nos conduz ao testemunhar de nós mesmos e é isso que nos traz consciência.
A matéria acima é apenas um reforço quanto a intensa campanha que mobilizamos para que mais e mais pessoas se interessem pela meditação e passem a usufruir deste maravilhoso ato de ir tornando-se mais cônscio de si mesmo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Não tenho tempo

Não há tempo
Não existe tempo
Estou sempre indo...

E vindo...

Correndo atrás...
Do meu medo
Do que fazer
Do que ter
Pra não pensar
Pra não olhar o coração...vazio.

Corro as pressas
Atrás do carro
Da casa
Do que comer
Dos filhos
E nunca sei onde eles estão

Não tenho tempo
Nem descanso

Não vejo o céu
De que cor é ele mesmo?
E o sol?
As paisagens das nuvens?
O luar?
Como ele é?

Quais são os brinquedos das crianças?
De que eles gostam?

Não tenho tempo de olhar
Meu olhar partiu um dia
Não sei pra onde se foi
Evaporou-se no cotidiano
Corriqueiro de meu todo dia

Nem vejo o dia passar
Apenas sei que é noite
Porque tenho que a porta trancar
Acender as luzes
E me deitar

Não vi nada
Não senti nada
O dia passou
A vida passou
E eu...
Não vi a vida passar

E ela passou...
Não tive tempo

Não tive tempo de sair
Andar, viajar
A correria do dia não deixou
Não deu pra sorrir
A não ser das poucas coisas
Dos amigos do trabalho

Mas não deu tempo de ver seus olhos
O brilho de luz que tinham na alma

Não peguei na terra
Não sujei as mãos
Nem plantei uma árvore

Não experimentei algodão doce
Nem comida vegetariana
Não fiz meditação
Nem dancei as lindas canções que queria dançar

Não cantei
E muito pouco amei

Não tive tempo
A vida sempre por um triz

Não havia tempo
Não houve tempo
Não haverá tempo

E no entanto...

Tanto tempo há
Eu é que não vi

A vida passar.